quinta-feira, 29 de junho de 2017

*22 de junho de 2017

Hoje minha colega trocou o turno comigo, de outro jeito não poderia participar da reunião dos sindicatos que estão no chamado aguerrido às suas categorias para a greve geral do dia 30, a qual as principais centrais sindicais cujas direções tem interesses atrelados ao normal funcionamento do establishment, independentemente de estarem alinhados com a situação ou com a oposição, são impelidas a negociações na superestrutura boicotando a agenda de lutas com a base.

Fui a pé pro trabalho, não sabia que o TRI havia entrado, o patrão do seu jeito me ajuda muito mas a lei injusta o ampara, e pela lei, ele pode descontar uma semana de passagem e um almoço por mês. Então costuma acontecer de eu não sentir fome uma vez ao mês e ir ler no parque. Por sorte e depois de dias de frio, a tarde estava deslumbrante, as borboletas ignoravam o que era o segundo dia do inverno e até um avião desenhando o céu com sua fumaça compunha aquela paisagem, simulacro de esperança. Eu lia a nada calorosa descrição de Molotov no livro de Churchill quando Nicolau me ofereceu o jornal Boca de Rua, eu sabia mais de Churchill que de Molotov e de Nicolau eu nem sabia, mas ele podia escrever minha biografia, segundo sua narrativa, quando eu volto do trabalho entre 19:30 e 20:00 ele está deitado na rua entre papelões e cobertas, me grita qualquer coisa bonita e eu sigo a rotina.

O primeiro informe da reunião foi sobre o tumulto no centro da cidade, os trabalhadores ambulantes haviam reagido ao ataque da Guarda Municipal num operativo de repressão ao comércio informal. Reagir foi a palavra de ordem, reagir contra gestões reacionárias.Molotov novamente em pauta. Vyatcheslav também é citado no vernáculo da resistência como:"agir de maneira mais contundente" e "jogar uns troço". O segundo informe:os metroviários deliberaram parar.

Quando terminou passei no supermercado.

- "Tem cacetinho ainda? Tenho que ver se 1,30 dá para três, senão levo dois por favor".

Joana - estava escrito no crachá - colocou três e deu mais caro.

-"Joana, levo dois, tá bom".

Mesmo com gente esperando na fila ela procurou um terceiro pão menor para que meu dinheiro alcançasse. Não alcançou. Ela pesou dois pães e imprimiu o valor, olhou para os lados e, aos olhos de todos, colocou o terceiro pão. Joana com certeza sabe o que é ter 1,30 para viver três dias, sabe o que é ficar sem passagem, sabe reconhecer seus iguais e não sei se sabe que é justo dar o pão de quem explora a quem não tem ou se agiu por impulso, mas eu sei que quando a reagir passa a ser uma postura perante a repressão e a solidariedade predomina sobre a natural tendência de não colocar-se em risco, pode ainda não ter mudado nada, mas está tudo diferente.

*por motivos variados só publico hoje

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"NÃO PENSE EM CRISE, TRABALHE"

Eu penso muito, no caso não significa pensar com astúcia, desenvolver complexas elaborações mentais rumo a simples conclusões, significa apenas e dolorosamente, pensar muito. Só não penso muito quando me chamam para trabalhar, quase sempre, eu vou. Só não sei se volto...

Não preciso pensar muito para ir à indignação, de ônibus, pagando 3,75 pelo meu direito de ir ou vir no que chamam de "transporte público", mas esse é apenas um ponto do ônibus. Nos dias em que emendo os trabalhos diurno e noturno a parada fica sinistra. No bar dona e funcionárias agilizamos, apesar do trabalho noturno acordamos todas cedo e precisamos dormir cedo também, então no melhor dos cenários cheguei 23:25 à parada, não adiantou de nada, enquanto 2 Orfanatrofio, 2 Santa Maria, 2 Pinheiro, 2 Restinga, 1 Campo Novo, 1 Jd. Botânico, alguns de Viamão e outros levaram seus passageiros, eu presenciava a renovação das pessoas que ali esperavam e o esvaziamento cada vez mais preocupante da parada, do 1 de Maio, Gloria, Alpes, nada. Meia noite e dez consegui deixar a parada, diferente da semana passada que não houve jeito pela hora avançada, peguei um taxi resignada. O taxi teve de andar a 20 km p hora na parte inicial do trajeto, o motivo? Protesto dos taxistas, haviam assassinado um e marchavam na madrugada.

E pegando carona na segurança...faço um deslocamento de aproximadamente 500 m na noite para ter acesso a transporte, dá tudo certo, chego inteirinha na parada e lá fico 40 minutos parada, não é ultrajante que a probabilidade de ser abordada, assaltada, esfaqueada, seja justamente depois de haver superado o caminho mais arriscado?

A explicação do motora é a explicação que o explorado aceita como negação para não encarar o fato de sua própria condição, no caso, o prejuízo do patrão." Só tem duas linhas, um pega a cascatinha e outro passa por aqui, não adianta botar mais pra dois ou três pegar, é prejuízo e alguém tem que pagar". A menos que eu consiga o milagre da onipresença só tenho uma opção, tento escolher a que me parece menos periclitante, essa parada aqui. Ligar para a EPTC para saber o horário de um ou outro, para além do divórcio que possa haver entre teoria e prática, significa consumir 5,00 em créditos por 2 minutos de ligação, ainda quero saber porque essa empresa pública, controlada por gangsters me rouba cinco rais por ligação, ainda não entendi porque é a ligação mais cara que faço do celular visto que nenhum orelhão funciona. Sobre o prejuízo" bem, estes senhores do empresariado são os primeiros a rosnar:"se queria ser professor deveria saber que ia ganhar menos, agora vem fazer greve", então como empreender numa área da mais urgente e grave utilidade pública não contabilizando os possíveis prejuízos decorrentes de tal atividade? Me dá vontade de dizer: NÃO PENSE EM CRISE, TRABALHE! Pensando um pouco, creio que o referido "prejuízo" seja muito bem contabilizado, esteja bem embutido no valor da passagem e nas cabeças daqueles que defendem o fim das isenções e o preço exorbitante da tarifa e a retirada de linhas em horários não lucrativos seja uma espécie de mais-valia, além de cobrir o custo das viagens não lucrativas às custas dos pagantes e da exploração dos trabalhadores rodoviários, o "prejuízo" sequer se geraria. é hora de puxar o sinal, isto tem que parar.

Eu tenho dificuldade em me deslocar no domingo quando vou trabalhar, mas fico igualmente indignada por aqueles jovens que só querem passear, porque passear é mais importante que trabalhar, e não me representa a palavra de ordem dos protestos contra o aumento da passagem: "Pra trabalhar, pra estudar, mais um aumento eu não vou pagar", porque não devemos pagar por transporte público nem pra bater siririca na Redenção.

Sobre pagar para trabalhar... os empresários são amparados por lei a não pagar integralmente nosso transporte ao trabalho. Então pagamos para ficar de punhetagem na redenção e pagamos para trabalhar.

Dia 25 de novembro tem manifestação contra a crise do capital que o povo está a pagar, em vez de ficar na parada pegue o coletivo que realmente pode levar você a algum lugar.

terça-feira, 22 de março de 2016

NÃO PASSARÃO!

"No pasarán" foi o emblemático lema encarnado por Dolores Ibarruri (La Pasionaria) deputada pelo Partido Comunista Español uma das principais dirigentes na luta contra a conspiração militar que golpeou a República liderada por generais como José Sanjurjo, Emilio Mola, Francisco Franco, levada a cabo depois de uma atordoada conjuntura nacional (autoritarismo, reformas estruturais, contrarreforma, eleições gerais 6 meses antes...) e internacional (vésperas da II Guerra Mundial).

Menos passional Miguel de Unamuno escreveu: "Eles vencerão mas não convencerão". A força do anarquismo espanhol, as lutas por autonomia da Catalunya, Euskal Herria, a derrota do exército espanhol na região do Rif (Marrocos) sobre a qual os peninsulares firmaram suas patas com as principais potências europeias faz do episódio golpista -nada episódico pois a ditadura "franquista" depois de 3 anos de guerra civil ditadurou por 37 - um evento singular, contudo elementos bem universais da luta de classes e seus desdobramentos políticos contextualizados na España de 1936-39 me levaram a mencionar a gravidade de algumas similitudes latentes já em 2014 durante uma palestra sobre ditadura militar na Feira do Livro da cidade após intervenção de Olívio Dutra, inflamado ele instigava: Reforma ou Revolução! Eu ia ficar quietinha, dentre os palestrantes figurava não só um entendido sobre Guerra Civil Española como filho de exilados do regime encabeçado por Franco, mas a primeira coisa que me perguntei por mais óbvio que pareça foi: que inquirimento é este vindo de um quadro do PT -???- (cujo programa não está em disputa há muito pois os golpismos e autoritarismos intrapartidários fazem jus a qualquer totalitarismo, numa máquina partidária acoplada ao estado então nem se fala...) sendo que, as únicas reformas na pauta governista do partido desde 2003 eram as "contrarreformas" como a da Previdência, "revolução" me soou quase como um estranhamento estético, pronto, falei.
E justamente por falar de coisas que, aparentemente, não faziam todo o sentido há um par de anos o debate foi encerrado, estou farta de saber, a esquerda adora um fato consumado, pra que debater, protestar antes, mais fácil esperar que esteja tudo escancarado. Talvez naquela ocasião haja me remetido ao fatal fracasso de um estado republicano perante contradições sociais que só podem ter algum desfecho favorável num sentido revolucionário e com, certeza, lembrei do vacilo majoritário da esquerda legalista que respaldada pelo stalinismo fez o serviço pro fascismo perseguindo a "esquerda incontrolável", "quinta coluna de Franco".

Há exatos 80 anos do início da G.C.E e 02 de meu atestado de extraterrestre por evocar o conflito español na feira literária de Poa, a tv a cores ou o facebook parecem as modalidades pós-modernas de veicular um anacronismo, setores médios da sociedade polarizados, enfrentamentos com repressão na universidade, reivindicações de intervenção militar, e o lema vermelho: Não passarão...

Apesar das aberrações irracionais que a direita conservadora, déspota, moderna, democrata, produz quando mina o campo social não subestimo sua capacidade lógica e lucidez. Uma "elite", uma burguesia, nunca é uma só, ela é jacobina mas também é girondina, uma totalidade sempre pode partir-se em dois. Alguns setores da burguesia brasileira podem ter ficado em segundo plano nas gestões de Lula e Dilma, outros mantiveram intacto seu status, e uma parcela significativa da população teve acesso a direitos elementares até então distantes, um dos mais importantes o ensino superior. Mas é aí que o raciocínio não pode ficar a meio caminho, parcial, um aspecto sacralizado. A garantia desse acesso (sem entrar no mérito do rebaixamento de avaliação da qualidade do ensino, fábricas de diplomas, etc) não confrontou interesses financeiros, pelo contrário, fez parte de uma dinâmica de mercado cujo objetivo entre outros é ampliar oferta, mercado consumidor, otimização de mão de obra. Isso não significa que uma parte repugnante da sociedade não se sinta extremamente agredida ao ter que conviver e ver representados nas diferentes esferas sujeitos sociais até então completamente alijados dos direitos universais, não sou eu que vou dizer, cada negro formado numa universidade deve saber e dizer o que é. Mas tomar esta "reação" e colocar sobre ela uma lente de aumento da qual se deduz um enfrentamento travado pelos recentes governos é uma armadilha que se retroalimenta por uma forte e odiosa reação orquestrada recentemente cujos últimos episódios só fizeram piorar.

E minha única dedução lógica é que o hiato entre as gestões do "PT/PMDB/ETC/SOCORRO" - que administraram o país com Sarney, Collor, Calheiros, empreiteiras, capital financeiro lucrando como nunca, neutralização do movimento sindical que rachou em dez, ajuda fiscal à mídia golpista, redução do cidadão brasileiro a consumidor da indústria automotiva e eletroeletrônica - e o atual cenário que permitiu a sabida reação com episódios golpistas, foi a repercussão da crise financeira mundial que eclodiu em 2008 e um Junho que nasceu promissor, libertário, crítico em 2013 e cujo espectro atemorizou de fato as elites decidindo o preço da passagem na rua, colocando em questão a Copa do Mundo da Fifa, forçando a Dilma a falar em Constituinte ("desatino" abafado em questão de horas), as jornadas de junho que apavoraram o governo e as elites e foram disputadas pela reação conservadora, foram o "choque de realidade", o verdadeiro fantasma vermelho que assombrou o establishment, assim como o levante de 1934 assombrou as elites españolas encarnadas dois anos mais tarde na sublevação militar após as eleições gerais.

O momento é de debate político e muito foi e será dito, não me resta muito mais que ser panfletária, Lula ministro pra escapar de processo é golpismo, lei antiterrorismo é golpismo, ajuste fiscal é golpismo. São golpes duros em um projeto estratégico de emancipação do povo que perde a razão de ser quando é atacado por estas medidas capitulacionistas, necessárias ao capitalismo ou meramente de acobertamento de esquemas de desvio de dinheiro. Do mesmo ofício de Frei Betto porém russo, Vladimir Solovyov refletiu: "A beleza desprovida do bem e da verdade é apenas um ídolo", a bandeira vermelha que tremula pela democracia ao mesmo tempo que a esvazia na essência é fetiche para enfeitiçar gerações que, em respeito à própria história não puderam acreditar na fraude petista, e muitos mais jovens herdeiros legítimos da referência histórica do partido. Sou pelas pseudoliberdades que nos vendem como democráticas por mais burguesas que se apresentem e seria uma desonestidade intelectual atribuir-me desconhecimento sobre os perigos do autoritarismo, dos desmandos de um estado de exceção, das irreversíveis chagas da tortura, a tortura... pode partir do poder ou do pathos e, não raras vezes, somatiza. A tortura pode ser doméstica, manual, ou pode ter manual, como a máquina de lavar.

Os comunistas até hoje acusam George Orwell de ser um "inimigo do povo" financiado pela CIA, ele lutou em apoio à República na Guerra Civil Española e, mais tarde, escreveu: "A Frente Popular podia ser uma fraude, mas Franco era um anacronismo", dificilmente um agente do fascismo proferiria uma conclusão destas mas é preciso sempre atacar pensamentos como o de Orwell, é preciso sempre se defender do pensamento crítico e incitar o ufanismo, é preciso legitimar personagens como Ciro Gomes e Fernando Collor discursando contra o golpismo, é oportuno e reconfortante que o juiz seja um corrupto de direita, oportunista e golpista, isso ameniza o esquema depravado da direção petista.

Se depender de mim não passarão os golpistas, não convencerão os petistas!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Os fantasmas e as almas penadas

Há muitos anos adentrei numa aula de grego a convite de minha amiga Karine, à época estudante de Filosofia, passar despercebida com este tamanho não era uma opção, se havia algo que fazia jus a Schopenhauer ali era toda minha corporeidade...Lá pelas tantas o professor escreve um verbo no quadro como exemplo: ristó (colocar em pé), a palavra restaurante retroativamente fez todo o sentido para mim e também o dito: "saco vazio não para em pé".

Todos os dias às oito colocamos o restaurante em pé. Ao meio-dia, centenas de sacos vazios sentarão para parar em pé. São operários das obras, seguranças dos prédios, faxineiras das casas do bairro rico. Há duas tv's enormes claro. Quando o telejornal noticiou o esquema corrupto do deputado Jardel e seus funcionários fantasmas meu colega carregando na voz as horas de trabalho falou: - Aqui não tem funcionário fantasma...Eu, deixando meu ateísmo de lado lhe respondi:- Só se formos almas penadas. Ele me olhou como se estivesse vendo um fantasma...

A responsável pelo restaurante (que também faz as vezes de cozinheira e descasca laranjas com a gente) tem apenas 21 anos. Mas um recorrente infantilismo se nota nos funcionários, no mundo do trabalho é o poder que pauta o etário. Outra cozinheira me contou que tem 4 filhos: - Uma morta e três vivos. Um casal sai de lá direto para atender até tarde da noite num armazém, foram criados para o work-a-holic do trabalho forçado, eu sou uma uruguaia no ninho.

Em tempos modernos Chaplin continua vigorando para além do trabalho operário, há um fordismo nos serviços prestados. Saio dos locais nos quais trabalho garçoneteando, deixando os outros passar na minha frente, oferecendo guardanapo, dizendo "às ordens" depois do "obrigado". Minha professora de dança escuta o "sora" das aluninhas chamando em casa, na rua, no carro. No pequeno comércio o patrão é outro quando se vê os donos trabalhando como qualquer condenado. Ser rico é ter tempo e dinheiro nunca os dois separados. Claro que nada é simples assim, e assim divididos estamos, trabalhadores proprietários aspirando ser grandões e trabalhadores sindicalizados chamando parte dos seus de lumpemproletariado. Não vou fingir que me safo, brigo com os operários quando pegam o prato da salada para servir a sobremesa, é um restaurante não o refeitório da empreiteira, não gosto de trabalhador arriado.

De tanto adentrar em aulas com todo meu Schopenhauer, de tanto adentrar em lutas com meu lumpemproletariado, fiz muitos amig@s acadêmicos e boa pare deles transparece uma espécie de gratidão quase envergonhada em relação ao proletário. Como se @s assombrasse o fantasma dos não privilegiados. Não resta dúvida que o domínio da ideologia os penetra para além de suas teorias, a burguesia lhes roubou tanto quanto à maioria do povo e lhes injetou a culpa em troca da academia.

A Venezuela tem seus fantasmas, típico de um governo militarizado em qualquer parte do mundo, a Venezuela de 89 tem seus incontáveis fantasmas, típico de um governo democrático latino-americano. O Brasil é o país da diversidade, os fantasmas são quase todos negros e a maioria dos brancos almas penadas. Nossa missão é resolver as coisas mundanas que não nos deixam descansar em paz, resolvê-las num conjunto espectral sabendo que continuaremos a brigar porque uns queremos virar a mesa, outros se entregaram de bandeja, e também pelo tamanho do prato da sobremesa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Psicossomática


Eu não fui ao posto de saúde por algum problema psiquiátrico, esse eu não trato, faço teatro. Também não foi por alguma complicação coronária mas saí de lá totalmente taquicárdica.

Também era novembro chuvoso, de Feira do Livro de Porto Alegre em 2009 quando Juremir Machado publicou uma crônica minha no segundo maior jornal do estado, o enredo não era nada inusitado: a tragédia da saúde pública na capital e seus usuários indignados.

Depois de alguns anos passados que não me venha o poder público com dados fabricados, nada mudou: o atendimento varia conforme os indivíduos e em alguns casos chega ao completo destrato, o serviço como sempre sucateado, o estado de saúde fica à mercê dos cuidados dispensados no âmbito privado, se você depende da saúde pública nem pense em ser um desleixado...

Se depender de atendimento no Centro de Saúde Santa Marta então convêm não ser nem desleixado nem ateu para que a santa o ajude no calvário. Não faz um mês que adentrei o posto para marcar ginecologista, lá chegando encontrei minha amiga Marju, e ficamos conversando como de "visita" mas a alegria acabou quando chamaram o número de minha ficha: a médica vem só daqui a dois dias...

Ah, pra que uma mulher precisa de ginecologista, eu sou cavalo de largada, desisto fácil, hoje vou procurar o dentista, antes das sete da manhã me plantei na porta no único dia da semana que prevê a marcação já dita: dentista só quando ele voltar, não sei daqui a quantos dias... O mais grave de tudo, não encontrei com Marju lá pra gente ficar de "visita".

A Marju é uma dançarina de flamenco, a dança da Andaluzia, no local onde ela dança há uma parede cheia de santos e santas apesar do "embrujo" que provocam as bailarinas. Eu peço à parede inteira para que não demorem mais quatro meses aqueles exames urgentes e os de rotina, para que liguem logo marcando eco e radiografia, não peço sequer um estado laico, republicano, com meus direitos respeitados e a saúde garantida, eu peço só a Santa Marta que se garanta e livre a todas dessa agonia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

El País

O Brasil e o Uruguay discrepam muito em dimensões, discrepam muito em índices educacionais, discrepam muito. E por mais que se discrepe sobre as fronteiras entre sul do Brasil, Uruguay e Argentina brasileiros de todo o Brasil e uruguayos de todo o país concordam em discrepar dos argentinos de Buenos Aires...

Se há uma coisa que aprendi do trotskismo é que não há ismo num só país e, por mais que o pão com manteiga seja uma prova irrefutável de que estou em Montevideo, o jornal parece ter sido trazido por um cachorro brasileiro.

Uma mídia arbitrária que, para além de seu discurso totalizante, reserva o mesmo tempo de pronunciamento para representantes do poder público e da "oposição" como se estes também governassem a nação, um governo ex esquerda que dedica dois minutos de ódio diários aos dissidentes, uma classe média medíocre que se indigna com a corrupção, com os ataques à liberdade de expressão, com os uruguayos que votam no país sem nele residir e com o kirchnerismo, no país vizinho...

O que as classes médias do continente, luso ou hispanofalantes, não conseguem formular é que as empresas indianas ou de qualquer parte do oriente instaladas na República Oriental decidem e legislam mais que qualquer cidadão com seu voto epistolar, que meia dúzia de canais de televisão, todos com a mesma visão, vociferam para preservar seu monopólio da expressão enquanto 56 rádios e um canal de televisão criados por povos originários são autorizados na Argentina, que toda corrupção pode significar um bebê em óbito à espera de uma ambulância, uma criança sem merenda na escola, um velho sem remédio, uma casa de cultura sem acervo, mas a corrosão no erário provocada pelo sistema financeiro que escoa o dinheiro gerado pela população local para instituições privadas trans(nacionais) é maior, que é fácil odiar adolescentes delinquentes mas muito difícil farejar violência nos jovens filhos das classes proprietárias que não estão roubando, mas estudando para perpetrar o sistema da desigualdade social.

Há uma dimensão que nossos setores esclarecidos mais nocivos parecem não querer acessar, que é uma análise radical da violência, onde ela é mais capaz, onde não se deixa decifrar. É justamente essa violência fundamental que o sujeito exclui de seu entendimento que volta, como uma psicose, diretamente do real, com uma magnitude brutal, com uma mão armada batendo no vidro do carro pronta pra matar e para a qual ele só vê uma saída: a perversão institucional, "o Estado para me proteger deve os castigar", mas a violência continua a aumentar então é preciso ser uma mão armada pronta para matar.

Viro a página, seção internacional, há, em diferentes magnitudes, em nosso continente, insuficiente controle popular sobre a vida cidadã, herança colonial, presente de nosso capitalismo dependente e motivos para restringir liberdades em certo grau do processo, do kirchnerismo ao castrismo passando pelo bolivarianismo e delirando com o trotskismo sempre aparecerão, ainda justificadas todas as contradições, bloqueios e boicotes, há uma dimensão que nossos setores esclarecidos mais revolucionários parecem não conseguir acessar, que é uma aceitação radical da liberdade individual, que sempre permanecerá residualmente, diretamente do real, tratada como uma psicose.

O bom de ler um jornal já sabendo o que está escrito é poder focar na língua vernacular, rememorar certos regionalismos, aprender alguma curiosidade gramatical, tentar abstrair que há um capitalismo, um neoliberalismo, um golpismo, um istmo que une os países de nosso continente por mais que estes estejam profundamente separados pela qualidade do pão no café da manhã.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Presente

Dizem que as mulheres amamos com os ouvidos, para mim que não sei o que é amar na surdez, não poderia fazer mais sentido a não ser sobre o que é dito, com a boca, com um olhar dirigido, com as mãos num violino.

Isso deve explicar uma paixão que carrego, a única que nunca me leva ao desatino, a que tem explicação, argumento e raciocínio.

Por alguma razão que os outros talvez desconheçam o que me junta aos professores é muito mais que uma escuela. Eu lembro bem da primeira maestra, tão bem como se fosse esta. Lembro da segunda, já sem túnica, sem bandeira nem por isso tão distante daquela da pátria celeste, as lembro porque estão em mim e até hoje eu digo: presente!

Lembro até dos que não amei pois amei colateralmente, com o professor de geografia tínhamos um tratado para lá de Tordesillas, ele não me dava "falta" e eu não ficava para escutar os descalabros que ele dizia e, foi numa dessas, entrincheirada na biblioteca, que entendi Simón Bolívar, su maestro era un héroe tan Simón cuanto su cría.

Longe das páginas dos livros, precisamente entre as folhas arbóreas do outro lado da rua eu aprendia, quase adulta, que uma árvore sozinha era uma pequena cidadezinha. Em plena aula de biologia era adentrada na poesia ao saber que uma angustifolia é composta de angústia e folia, e como voltar pro the wall da escola depois de tal heresia.

Fui aprender do mundo o que há em sua periferia, o que se escuta do berimbau apesar do silêncio de quem o ensina. O que tinha pra me dizer uma luta que vem da China e mais do que o golpe em si no resultado li anatomia. E mesmo fora dos eixos pus o pé numa academia, em barricadas pelo salário, em cátedras de grego, bancas de antropologia, mas em matéria de física sempre agiu em mim uma força centrífuga e nesse universo eu nunca tive matrícula, porém como quem invade, saqueia e por fim conquista, tenho mais professores comigo no percurso que em cada curso de quaisquer campi da América latina.

Aquele que denuncia como civis, em suas aparentes rotinas, financiaram material e ideologicamente ditaduras militares em terras brasileiras e platinas, não se contenta em defender as massas em sua abstração do dia a dia, acredita sonho por sonho e material e ideologicamente me concretiza. Ao outro ofereço minha cabeça de bandeja e ele a nega sei lá por qual ética, pega una guitarra e me conta que não adianta massa cinzenta se não se canta como La Negra.

Já faz muito tempo que sou toda ouvidos, há muitos outubros não lembro ao certo, cometeria algum deslize, que faço primaveras no dezesseis mas meus presentes são todos do quinze*.


*15 de outubro, dia dos professores no Brasil