Hoje o domingo começou saudosista. Pão caseiro, receita da vó Maria, a vó não é minha mas serve. Mate companheiro e atraso costumeiro para ver a OSPA no parque Farroupilha. Breve ataque a Juremir Machado ali no restaurante depois da igreja positivista, antes do Brique. O Brique é uma região de microclimas, o velho da viola parece predominar mas dali a poucos metros são os índios kaingangues que se precipitam numa dança que não é a da chuva, mas parece e, antes de passar pela roda de capoeira, pela banda de folk e pelo cara da folha adentrei o parque, eu queria era pegar o Borhguettinho. O Borghettinho não é um deus grego, mas é um deus gaucho.
Como é da vida encontrei toda Porto Alegre na apresentação menos as amigas com as quais havia marcado. O Bernardinho, agora com nove, meu amigo desde os quatro, é uma linda amostra da população porto-alegrense, resolvi acompanhá-lo: - Be, vou ficar aqui te olhando andar de bicicleta. Não me recordo com qual conhecido saí a tira-colo pelo parque em poucos minutos, mas me lembrem de jamais ter filhos.
Eu estava procurando uma moça delicada, linda, de nome Flávia - que significa "dourada"- neta da vó Maria do pão caseiro e encontrei um cara nervoso, de cara nervosa, de nome Miguel - tem "Deus" no meio mas não faz jus - marido de minha (pasmem) madrinha (pasmem) de crisma.
Miguel é um tipo de referência desde a infância, quase um elo perdido que a gente encontra de vez em quando, o sujeito que parece existir para que uma criança demasiado tímida e sensível o veja e pense: -" Esse cara me assusta, mas parece criança também". Devo estar sob efeito do Pequeno Príncipe, vi o filme pela primeira vez há um par de dias, soubesse o quão profundo era, teria lido o príncipe do Exupery e não o do Macchiavello. Mas Miguel nunca pareceu ser um adulto sufocando sua criança interior reprimida por negligência que se reencontra durante um acidente de avião e pode "perdoar" o mundo adulto, indiferente, estéril. Ele sempre foi o próprio avião em queda livre, o elefante indigesto à jiboia, um eterno pequeno príncipe. Quando o vi estava perdido também, e quando nos encontramos, num diálogo mudo, concordamos que só perdidos realmente nos encontrávamos.
O Renato no palco, numa performance pra lá de bagual e eu indagando Miguel sobre commodities. Depois veio o que ele chamou de "Fagundaço" com canto alegretense e tudo e Miguel a insistir que a única maneira de combater o agronegócio era ele limpando seus três vulcões e regando sua rosa. Algo que para adaptar à linguagem adulta chamou de "microrrevoluções". Os uruguaios - tem mais essa, é uruguaio - são conservadores. Tanto de esquerda quanto de direita, damos um jeito de mudar tudo para não mudar nada. No fundo, Miguel permanece um comunista mesmo que, para tentar justificar a conversão neoliberal de seus companheiros de geração no poder, corrobore com o discurso sobre " transformações locais", "radicalização da democracia", "socialismo do século XXI", crianças também são ingênuas.
Eu acho que o homem é o lobo do homem e não a raposa boazinha do pequeno príncipe, me bastava um Estado Estatal. Que o Estado era o aparto político-administrativo da classe dominante já sabíamos, mas ele vai além de sua razão de existir - fachada legal para entes privados surrupiarem o dinheiro do povo, em outras palavras, lavagem de dinheiro. O Estado, sofre uma espécie de "metacrime" o crime dentro do crime, a privatização do Estado cuja burguesia já é proprietária. Se eu fosse uma criança inventiva como o pequeno príncipe perderia tempo pensando num nome para isso. Privatização por etapas, reprivatização, autoprivatização, enfim, ser dono do álbum e dar uma figurinha em troca de duas.
Como toda a população porto-alegrense é composta majoritariamente por não porto-alegrenses, já havia encontrado outro uruguaio: - "Veio ver o show feito com a grana do Souza Cruz? Achei que não gostasses desses capitalistas". Recapitulando: o álbum é da Souza Cruz, as figurinhas são da Souza Cruz...mas o dinheiro para comprar o álbum e as figurinhas vem do trabalho canceroso e deprimente a que são expostos os trabalhadores rurais, quando a Souza Cruz joga alguma figurinha repetida todo mundo junta. Mas é compreensível o sarcasmo, o público ri do palhaço porque teme ser atrapalhado, mal sucedido, ridículo como ele. É melhor rir, ser funcionário de uma universidade pública que, dia após dia é entregue de bandeja a investimentos privados e aceitar resignado poderia dar vontade de chorar.
Esse tipo de atitude é típico subproduto do que chamamos de "segunda geração". A geração que vem depois de uma perspectiva de mudança social derrotada por forças reacionárias contrariadas sempre vem estragada. Miguel me contava de seu sobrinho, filho de comunista, exímio funcionário da Souza Cruz... segunda... geração...estragada....
A nossa definição para "segunda geração" é brincadeira, sério mesmo é quando a gente finge não ver que a jiboia pode engolir tudo, até um elefante.
domingo, 21 de abril de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
MÃOS AO ALTO: ESSE AUMENTO É UM ASSALTO!
Eu não tenho facebook. Para mim, todos os facebooks são fakebooks. Na carência desesperada pela comunicação se dá a comunicação "segura" atrás de um perfil-escudo. Discussões intermináveis à parte, a favor ou contra as redes - se ninguém deu bola para o genial Guy Debord quem sou eu para dizer que estão todos no espetáculo - meus últimos ataques histéricos por causa do face foi com meus companheiros de luta, para saber das manifestações contra o aumento das passagens tinha que passar pelo face, deixei de participar de um dos protestos por ignorá-lo. Isso denuncia duas debilidades: minha aversão às relações virtuais, teleguiadas, remotas e (pior ainda) a falta de instâncias democráticas nos partidos para informes e confronto de ideias.
Hoje, um dos jornais reacionários de grande circulação na cidade não teve outra escolha a não ser publicar declaração de um motorista do transporte coletivo para o jornalista: "O clima está outro. Todo mundo está mais feliz".Todo mundo está mais feliz...o conceito de felicidade é algo que intriga a filosofia desde seu surgimento, quase tanto quanto a morte e, como tudo na filosofia, a resposta pode ser mais simples do que parece. Mas a reflexão filosófica, alguém já disse com palavras mais contundentes, tem o dom de reduzir o complexo ao simples e de transformar o simples num complexo rebuscado.
E o que é o simples nisso tudo? A felicidade, que sempre tão exaurida teoricamente por alguns que nunca a sentem, acaba sendo possível para quem sabe senti-la onde ela de fato se manifesta, no bolso claro. Brincadeira óbvio, mas na prática os quarenta centavos de ida e volta que garantem mais lucro à mafia dos transportadores são a felicidade de uma mãe que compra dois cacetinhos para o café da tarde porque, às vezes, não tem nem isso. E o que é o complexo nisso tudo? Quase tudo...
Foi justamente no ato da quarta-feira da noite em que eu pintava as unhas por não estar no facebook, que a Guarda Municipal e a Brigada Militar empreitaram atos de repressão que resultaram na detenção de minha companheira de partido, estudante do curso de enfermagem Luany Xavier. Foi nos atos das quartas-feiras dos anos anteriores que muitos outros estudantes, trabalhadores e vagabundos também, fomos detidos de forma autoritária expostos às línguas más ou boas daqueles que hoje representam a felicidade geral da diminuição do valor da passagem do transporte "público".
Dessa trajetória que remonta aos protestos contra o aumento do valor da tarifa do bonde (!) pode-se perceber como a felicidade se conquista e que "o mal do século que paralisará milhares em 2030", a depressão, pode ser combatido remediando a solidão social em que nos encontramos, quando milhares paralisem este sistema egoísta formador de seres humanos temerosos prontos a dividir apenas as vitórias sem tomar parte por elas.
Tomar parte e tomar as ruas foi uma coisa que os jovens desta cidade souberam fazer neste último e sempre estafante aumento das tarifas. Não sou uma entusiasta da juventude, gostaria de lembrar o nome do escritor desta assertiva: a juventude é capaz de qualquer coisa, quase nunca de ser original, mas sou uma entusiasmada com os fatos, e o fato é este: a juventude desta cidade fez o aumento da passagem ser revogado.
A bancada do Psol na Câmara fez sua parte, sua obrigação, ajuizou ação cautelar contra o, mais uma vez, indevido aumento e também ajudou a revogá-lo. A isto vem meu amigo e militante social Azeitona. Azeitona argumenta comigo que, este procedimento institucional pode desmobilizar o movimento, transmitir à população uma ideia de conquista do judiciário e que o prefeito da cidade pode sair desta situação o mais imaculado possível.
Tudo isso é possível mas, para mim, improvável Azeitona. A mobilização ganha novo fôlego com essa conquista, seu fortalecimento ou enfraquecimento (que não está em pauta) terá oscilações e será determinado por um conjunto de coisas que dependem muito mais da politização a ser fomentada e da capacidade de construir frentes de luta para as outras muitas demandas urgentes na cidade. Eu não sei o que é espontaneísmo, para mim espontaneísmo das massas é o que os comunistas chamam quando são na verdade os anarquistas que estão dirigindo as mobilizações e o que os anarquistas dizem quando são eles que estão patrolando as massas. Me xinguem no face.
A população da cidade viu as ruas ocupadas nas duas semanas seguintes ao aumento, se ela acha que a conquista foi do Pedro e da Fernanda é porque o spray das pichações foi inalado em massa e todos ficaram birutas. As juventudes do Psol são das mais guerreiras e atuantes, os mandatos destes vereadores seriam estéreis ao objetivo do partido senão pleiteassem as demandas sociais levadas a cabo por este setor. O judiciário se colocou, como raras vezes, onde deveria estar sempre, ao lado dos interesses públicos.
O Fortunati...não precisa nem a cigana da Praça Montevideo no Paço Municipal ler suas mãos, todo mundo sabe que há dinheiro de empresário nelas, sua gestão licita e privatiza para os empresários corruptos, para eles, Porto Alegre sempre é demais. Está claro que o José pode ser Fogaça, Fortunati mas sempre será Fantoche. Os réus na ação que resultou na medida cautelar são o Comtu (Conselho Municipal de Transporte Urbano), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação) e o Município de Porto Alegre mas quem reagiu foram os transportadores. É a tão sonhada luta direta entre trabalhadores e patrões do anarquismo Azeitona, que mais se pode querer???
Voltando à felicidade, ela é como a sociedade, dividida em classes. A felicidade de muitos é a tristeza de uns. Os empresários do transporte são sindicalizados (Seopa), rebeldes em suas (palavras de) ordens:O PROCURADOR-GERAL DA CAMINO É IRRESPONSÁVEL AO AFIRMAR QUE A TARIFA PODERIA SER 2,60! e partidários da ação direta - vão buscar na justiça a manutenção do aumento.
Estou a um passo dos trinta, longe de virar uma "balzaquiana" quero continuar uma marxiana. Com quase trinta e gritando: Tri caro, tri demorado e ainda por cima tri lotado!
Minhas quase trinta primaveras e meu marxismo quase militar me dão vontade de pegar pelos cabelos uma meia duzia de gurizadinha que estava com latinhas de cerveja no ato.Mas com que moral vou fazer isso, se os pais deles vão estar se empedrando com latinhas de cerveja na Copa? Deixa pra lá, as pessoas estão à janela para nos ver passar durante o horário "nobre" da novela, vou continuar nessa primavera portoalegrense gritando: Mãos ao alto: esse aumento é um assalto!
Hoje, um dos jornais reacionários de grande circulação na cidade não teve outra escolha a não ser publicar declaração de um motorista do transporte coletivo para o jornalista: "O clima está outro. Todo mundo está mais feliz".Todo mundo está mais feliz...o conceito de felicidade é algo que intriga a filosofia desde seu surgimento, quase tanto quanto a morte e, como tudo na filosofia, a resposta pode ser mais simples do que parece. Mas a reflexão filosófica, alguém já disse com palavras mais contundentes, tem o dom de reduzir o complexo ao simples e de transformar o simples num complexo rebuscado.
E o que é o simples nisso tudo? A felicidade, que sempre tão exaurida teoricamente por alguns que nunca a sentem, acaba sendo possível para quem sabe senti-la onde ela de fato se manifesta, no bolso claro. Brincadeira óbvio, mas na prática os quarenta centavos de ida e volta que garantem mais lucro à mafia dos transportadores são a felicidade de uma mãe que compra dois cacetinhos para o café da tarde porque, às vezes, não tem nem isso. E o que é o complexo nisso tudo? Quase tudo...
Foi justamente no ato da quarta-feira da noite em que eu pintava as unhas por não estar no facebook, que a Guarda Municipal e a Brigada Militar empreitaram atos de repressão que resultaram na detenção de minha companheira de partido, estudante do curso de enfermagem Luany Xavier. Foi nos atos das quartas-feiras dos anos anteriores que muitos outros estudantes, trabalhadores e vagabundos também, fomos detidos de forma autoritária expostos às línguas más ou boas daqueles que hoje representam a felicidade geral da diminuição do valor da passagem do transporte "público".
Dessa trajetória que remonta aos protestos contra o aumento do valor da tarifa do bonde (!) pode-se perceber como a felicidade se conquista e que "o mal do século que paralisará milhares em 2030", a depressão, pode ser combatido remediando a solidão social em que nos encontramos, quando milhares paralisem este sistema egoísta formador de seres humanos temerosos prontos a dividir apenas as vitórias sem tomar parte por elas.
Tomar parte e tomar as ruas foi uma coisa que os jovens desta cidade souberam fazer neste último e sempre estafante aumento das tarifas. Não sou uma entusiasta da juventude, gostaria de lembrar o nome do escritor desta assertiva: a juventude é capaz de qualquer coisa, quase nunca de ser original, mas sou uma entusiasmada com os fatos, e o fato é este: a juventude desta cidade fez o aumento da passagem ser revogado.
A bancada do Psol na Câmara fez sua parte, sua obrigação, ajuizou ação cautelar contra o, mais uma vez, indevido aumento e também ajudou a revogá-lo. A isto vem meu amigo e militante social Azeitona. Azeitona argumenta comigo que, este procedimento institucional pode desmobilizar o movimento, transmitir à população uma ideia de conquista do judiciário e que o prefeito da cidade pode sair desta situação o mais imaculado possível.
Tudo isso é possível mas, para mim, improvável Azeitona. A mobilização ganha novo fôlego com essa conquista, seu fortalecimento ou enfraquecimento (que não está em pauta) terá oscilações e será determinado por um conjunto de coisas que dependem muito mais da politização a ser fomentada e da capacidade de construir frentes de luta para as outras muitas demandas urgentes na cidade. Eu não sei o que é espontaneísmo, para mim espontaneísmo das massas é o que os comunistas chamam quando são na verdade os anarquistas que estão dirigindo as mobilizações e o que os anarquistas dizem quando são eles que estão patrolando as massas. Me xinguem no face.
A população da cidade viu as ruas ocupadas nas duas semanas seguintes ao aumento, se ela acha que a conquista foi do Pedro e da Fernanda é porque o spray das pichações foi inalado em massa e todos ficaram birutas. As juventudes do Psol são das mais guerreiras e atuantes, os mandatos destes vereadores seriam estéreis ao objetivo do partido senão pleiteassem as demandas sociais levadas a cabo por este setor. O judiciário se colocou, como raras vezes, onde deveria estar sempre, ao lado dos interesses públicos.
O Fortunati...não precisa nem a cigana da Praça Montevideo no Paço Municipal ler suas mãos, todo mundo sabe que há dinheiro de empresário nelas, sua gestão licita e privatiza para os empresários corruptos, para eles, Porto Alegre sempre é demais. Está claro que o José pode ser Fogaça, Fortunati mas sempre será Fantoche. Os réus na ação que resultou na medida cautelar são o Comtu (Conselho Municipal de Transporte Urbano), a EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação) e o Município de Porto Alegre mas quem reagiu foram os transportadores. É a tão sonhada luta direta entre trabalhadores e patrões do anarquismo Azeitona, que mais se pode querer???
Voltando à felicidade, ela é como a sociedade, dividida em classes. A felicidade de muitos é a tristeza de uns. Os empresários do transporte são sindicalizados (Seopa), rebeldes em suas (palavras de) ordens:O PROCURADOR-GERAL DA CAMINO É IRRESPONSÁVEL AO AFIRMAR QUE A TARIFA PODERIA SER 2,60! e partidários da ação direta - vão buscar na justiça a manutenção do aumento.
Estou a um passo dos trinta, longe de virar uma "balzaquiana" quero continuar uma marxiana. Com quase trinta e gritando: Tri caro, tri demorado e ainda por cima tri lotado!
Minhas quase trinta primaveras e meu marxismo quase militar me dão vontade de pegar pelos cabelos uma meia duzia de gurizadinha que estava com latinhas de cerveja no ato.Mas com que moral vou fazer isso, se os pais deles vão estar se empedrando com latinhas de cerveja na Copa? Deixa pra lá, as pessoas estão à janela para nos ver passar durante o horário "nobre" da novela, vou continuar nessa primavera portoalegrense gritando: Mãos ao alto: esse aumento é um assalto!
quarta-feira, 6 de março de 2013
Nosso luto é na luta!
O mundo acabou em 2012. Como o prognóstico era latino a coisa atrasou um pouco e depois de alguns feriadinhos, carnaval e um belo recesso, por fim, a coisa toda começou a deslanchar em 2013 (claro, o calendário era maya mas a latinidade potencial...). Meu embasamento teórico para tal afirmação sobre o fim do mundo é Slavoj Zizek, que se deslocou da Eslovênia à Câmara de vereadores de Porto Alegre para comunicar duas coisas, que Chávez morreu e que concorda com Fukuyama. Zizek é quase (ufa) um Chacrinha, ele veio para confundir. Chacrinha era rodeado por umas mulheres "objeto" com roupas apelativas e vulgares . Zizek é orbitado por um ovni, uma argentina que faz publicidade de lingeries...
Os militantes do capitalismo com mais visibilidade (os da mídia) prontamente o rotularam (depois os comunistas é que são conservadores) de filósofo pop star . Mas ao ouvi-lo pela primeira vez sem mediação audiovisual entendi. A cada sacada intelectual e conclusão lógica - que nada têm de conclusivas pois pensa desesperadamente para todos os lados, países, épocas, teóricos -as pessoas aplaudem, mas não dá vontade de aplaudir, dá vontade gritar gol. Até imagino o que Zizek deve ouvir de sua argentina: Sos un crack...
Sobre o fim do mundo, da história, etc, etc, etc, o esloveno é um provocador e "não discordar completamente de Fukuyama" é apenas uma maneira de aprofundar o fim da história até Hegel para atacar a teoria do estadunidense na raiz. Em seu Vivendo no fim dos Tempos o filósofo, professor, militante, psicanalista, analisa e critica as reações, respostas e alternativas políticas (ou despolitizadas) à atual fase da crise capitalista (apocalíptica) pelos próprios capitalistas e demais agentes sociais, a partir dos estágios do luto elucidados pela psicanálise a saber: negação, raiva, barganha, depressão, aceitação. Quanto a Chávez, não era provocação, até gostaria que fosse. A provocação ficou para os meios de comunicação da burguesia que comemoraram escancaradamente o falecimento. Nas manchetes de forma deliberada não se lê frases como: O presidente da Venezuela Hugo Chávez faleceu vítima de câncer como diriam de qualquer empresário corrupto e sim: Chávez está morto. Meu amigo Rodrigo Fonseca doutor em Análise do Discurso há de convir comigo, se "Chávez está morto" parece que ninguém morreu, e sim que algo indesejado findou e mais um monte de coisas...
O Papa renunciou...Quando os meios de comunicação estiverem na mão de comunistas retrógrados caçadores de bruxas como Yoani Sánchez obviamente serei a editora chefe e vou publicar: O Papa caiu fora. Perdeu mané. A classe proletária que planeja expropriar as classes possuidoras de maneira hedionda pelo menos dá aviso prévio para não provocar desordem...
Slavoj Zizek é um conservador - como o papa, que por sinal é o sonho de qualquer um desses agentes do Bird, FMI, BM que baixam por aqui querendo acabar com a previdência social, só se aposenta quando está com o pé na cova -, quando formulou suas críticas contra o discurso anticonsumista hipócrita as maçãs orgânicas ainda eram piores que as envenenadas, isso já foi superado, está desatualizado, pouco dialético. Quanto ao resto não deixa de ter razão, a pós modernidade nos traz café descafeinado, cerveja sem álcool, sexo virtual e ao reciclar o lixo queremos ingenuamente reciclar o capitalismo, mas insisto na superioridade das maçãs no atual estágio da produção agroecológica para ser bem marxista...
Sobre o processo bolivariano e a mão na cara que o povo venezuelano e Hugo Chávez meteram no capitalismo imperialista (redundância..) que sempre adorou não só o calendário como o ouro maya, meus amigos Mathias Luce e Carla Ferreira produziram vasto material, também conviveram nos barrios caraqueños, é só lançar seus nomes na internet para ler. Mas para aqueles que pensam que é o fim da história na Venezuela eu lembro: Simón Bolívar morreu doente há quase duzentos anos, e aviso: a revolução bolivariana será - para provocar Zizek - a nossa causa recuperada.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
TRAZ A ALEGRIA PARA OS FILHOS TEUS!
Como sempre, chegando às vésperas do desfile na quadra da Bambas, tomo conhecimento do tema enredo: a águia altaneira, símbolo da escola. Fico feliz, temo pelos temas que tentem agradar a alguém ou a todos...ou quando se fala de índios ou de negros, às vezes acontece de algo importante ser retratado de maneira ingênua, prefiro algo ingênuo sendo tratado com importância. A Bambas não tem patrocínio privado o que nos livra de abrir as pernas para qualquer Namorado - em 2009 uma escola de samba da cidade recebeu patrocínio de arrozeiros.
Um dia antes do desfile a fantasia ficou pronta, normal, é isso mesmo. Peguei um táxi na quadra para carregar a alegoria, mas o taxista era negão, carioca, filho de milico do tempo do Getúlio, e não gosta de carnaval nem de comunista e a passageira, uma branquela, uruguaia, carnavalesca e comunista, e não gosta de filho de milico do tempo do Getúlio. O debate foi tão empolgado que até erramos o caminho, esqueci para onde ia e ele para onde me levava, parecia samba de crioulo doido. Fiz um trecho a pé e encontrei com algumas clientes da loja em que trabalho: - Quero desfilar ano que vem também, que escola é?
e alguns catadores de lixo: - Azul e Branco...é Bambas né? Sou bambista também.
A sexta-feira que inaugurava os desfiles era a véspera do último dia de uma semana de trabalho cansativa, assim que terminasse a passagem da escola (última a desfilar...) voltaria ao trabalho. Em casa comecei a arrumar a fantasia e acompanhei algo da primeira escola a desfilar pela televisão, descobri que o cara com jeitão de jazzista norte-americano ao qual vendo pão sem glúten é Luiz Armando Vaz...Já era madrugada quando abri a persiana e vi que chovia, e chovia também mal encarado na rua. Azar, peguei minhas penas azuis e voei rumo ao camelódromo pegar um ônibus pro sambódromo. O Porto Seco deve ser o único lugar iluminado na região, sempre havia feito o trajeto em bando, distraída e agora reparava o quanto era inóspito, o ônibus parecia um trem fantasma. A iluminação era mais residencial que pública. A certa altura entrou um branco na lotação, achei que fosse ladrão.
No barracão a velha guarda, bela guarda, a bateria passando a toque de caixa, para dar espaço me grudei na velharada, ainda vou ser enquadrada no estatuto do idoso por assédio...E enquanto a velha guarda só ria o resto da escola corria e foi-se a hora... tá na hora. Na coordenação de minha ala Elaine e Fábio, desfilo sempre na ala que aparece, mas exibida que sou me acho a rainha da bateria...dois dias antes estou tomando água de coco para sambar até desidratar, a Flávia tira onda perguntando da "globeleza", mas longos trechos da passarela estavam tão escorregadios que eu estava a desfilar feito uma gueixa (globeleza do Japão), controvérsias à parte, o motivo parece ter sido a pintura feita às pressas, para adequar o local e impedir a suspensão dos desfiles, diluída na água da chuva que caía.
Em meio ao desfile vejo desde a avenida, na arquibancada, dona Margarete em êxtase por me ver na primeira ala da escola, quase atirou seu Hélio e a Emanuelle no meio do carnaval de tão emocionada, fiz um esforço enorme para não comungar daquela histeria coletiva protagonizada pelos três, mas devem ter me escapado uns dois tchauzinhos bobos (vai que perde ponto...).
Eis o ponto, perder ponto. Já quase no término de um brilhante desfile caracterizado pela sempre emocionada e aguerrida dedicação de seus componentes, após haver enfrentado apenas alguns percalços, quando já me encontrava na dispersão é que vem a notícia - é impossível saber o que acontece além ou aquém de alguns poucos metros da própria ala ou carro alegórico - um carro parou por excesso de peso e seus ocupantes concluíram o desfile no chão. Ainda tentávamos assimilar quando irrompe na dispersão o presidente da escola, Cleomar, sendo amparado, aos prantos pelo acontecido.Um carnaval pode ser comparado a uma peça de teatro, a um jogo de futebol, se trabalha um ano inteiro para apresentar tudo em uma hora, mas o teatro pode ter uma temporada inteira para redimir uma falha na estreia, um time pode ter um segundo jogo para mostrar um gol, a escola de samba não tem perdão. O desalento era geral apesar do samba enredo ser entoado alto e uníssono mesmo já terminado o desfile.
Geral também foi o comentário, muito alardeado pela mídia, de que a escola estaria fora da disputa do título de campeã e que este seria decidido no segundo dia de desfiles. Tão alardeado que até nós acreditamos. Só tem uma coisa que costuma ser pior que um comentarista: um jurado. Já estava resignada, após anos sem acompanhar os desfiles pela televisão comprovei principalmente na transmissão do Rio de Janeiro como patrocinadores, rede Globo e suas respectivas exigem que a mercadoria carnaval seja a supremacia da técnica e da tecnologia, cujo elemento popular de maior destaque é a bunda. Coreógrafos caríssimos, rainhas globais, e carros muito hollywoodianos são os requisitos do atual bom carnaval. a bateria...esta parece ser o baluarte da criatividade inatingível pela patrola mercadológica, ela se impõe a qualquer imposição, é magistral. Meu amigo Cláudio que não entende o carnaval... duas baterias da Mangueira numa avenida são um escândalo, dirigir duas baterias cujos componentes não são eruditos disciplinados e sim faxineiros, taxistas, seguranças, padeiros, pedreiros, em meio a quatro mil componentes é um escândalo, mas eu sou gente rasteira pergunte ao Buarque de Holanda o que ele vê na Mangueira.
Pensar que a Trovão Azul - bateria da Bambas que é uma verdadeira tempestade - as bem acabadas fantasias e a emocionada nação azul e branco estariam inexoravelmente fora da disputa por problemas em uma parte do todo parecia injusto, porém, factível. Havia algo, somente algo, de lógico nisso, o defeito no carro poderia retardar a evolução, mas era o último carro...está bem, vá lá, atrasou dois minutos...o povo espera o ano inteiro pelo carnaval, o que são mais dois minutos de alegria. Alegria perante a tecnocracia do mercado que infiltra o carnaval, assim como a política. A profissionalização do carnaval é inevitável e saudável, assim como na política. Cumprir com quesitos torna possível o julgamento pois somente uma escola levará o título, mas não pode ser que um problema bem superado anule um todo excepcional, Me lembro da primeira peça de teatro na escola da Terreira da Tribo, a alpargata de minha personagem que ameaçava a protagonista com palavras, escapou em cena e na mesma hora improvisei segurando o sapato na mão ameaçando-a fisicamente. Não deveria eu ganhar no quesito improviso? Não deveria uma modelo que cai numa passarela e se levanta com toda a graça receber mais propostas de trabalho pelo domínio da situação?
Quase não acreditei no resultado da apuração, imagino a velha guarda segurando o velho coração. Os jurados surpreenderam ao provar que não são reféns do reinado da técnica sobre a alegria e o que predominou neste carnaval foi o trecho do samba enredo em menção à águia:
Traz a alegria para os filhos teus!
Parabéns Bambas da Orgia, campeã do carnaval de Porto Alegre.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Antes de ver Batman com Hanna, resolvi ressurgir na casa de Carmen que é a própria mulher gato (tem gatos, esculturas de gatos, miniaturas de gatos e um cachorro, só para apanhar dos gatos). A ideia era concretizar um mate adiado há mais de ano e se a gata da Paulinha não tivesse sequestrado a cuia da mãe, Carmen e eu teríamos tomado umas duas chaleiras, a gata da Clarinha fugiu para o quarto assim que anteviu configurar-se na sala o princípio de uma narração ininterrupta, emocionada, empática e multifacetada: duas mulheres que há tempo não conversavam. Lá pelas tantas catamos das trevas uma cuia e finalmente mateamos antes de eu voar para o cinema e passar as duas horas e quarenta e cinco de filme querendo mijar (!!!).
Da trilogia de Christopher Nolan não lembro de ter visto o primeiro filme (Batman Begins) mas me cativou o segundo (Batman: O Cavaleiro das Trevas) que me levou a ver o terceiro (Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge), para ser uma mercadoria da Warner Bros estes últimos abordam teses sobre ética até relevantes que não ocupam apenas dois hipócritas e rasteiros minutos da película como em quase todas as mercadorias de entretenimento.
No segundo filme é apresentada, em traços grossos, a seguinte situação ética: um promotor público se destaca no combate ao crime organizado, assume a identidade de Batman como tática para proteger o herói e a si mesmo e se consolida como uma referência de justiça para a população, em seguida, vitimizado pelo vilão Coringa se corrompe transformando-se num criminoso também, para que o povo não perca a esperança na justiça e na ética encarnadas no herói, o verdadeiro Batman assume a autoria dos crimes e isenta a imagem do promotor que morre, mas cujo caráter permanece publicamente ileso. A tese central: herói é aquele que faz o que é necessário.
O terceiro ainda está fresco em minha cabeça. Como todo produto lançado com o objetivo de obter lucro e ao mesmo tempo reforçar a ideologia que garante uma sociedade na qual seja possível alguém obter lucro, quase todos os personagens carregam uma simbologia direcionada, no cerne da trama o mentor da vilania por trás do vilão secundário é uma mulher, o homem-morcego aparece num princípio decadente e desprovido de cartilagens devido à sua alta produtividade no passado, mas depois de dois abdominais se recupera e volta à ativa, uma ladra que tenta, de maneira criminosa, conseguir uma "Ficha Limpa" - a arte sempre antecipa a vida e a política - mas se regenera após momentos de contradições, um jovem detetive que questiona atuação de policiais por estes só acatarem ordens superiores sem refletir sobre a situação concreta, um Alfred que além de falar de igual para igual com seu patrão herda boa parte de sua fortuna.
Dentre as situações centrais, um vilão grotesco que no momento de caos provocado por ele mesmo se apresenta como detentor dos destinos do povo e com discursos nazi- fascistas de apologia popular contra as classes dominantes declara estado de lei marcial e instaura em Ghotam tribunais com processos de julgamento e punição similares aos universalizados pelos episódios seguidos às revoluções francesa e russa nos quais até os colaboradores são condenados e executados. Em instantes épicos o povo da cidade vai às ruas contra a tirania e, no final, o homem-morcego salva sua cidade, seu povo e a si mesmo (???) depois de explodir no ar com uma bomba nuclear. A bomba, antes de bomba era um reator que caso tivesse o núcleo preservado seria a investida ecológica da cidade...
Talvez esse seja o lado mais lúdico do filme, a alternativa ecológica. Mais lúdico até do que um "homem-morcego". Cogitar uma saída ecológica sem cogitar a saída do sistema capitalista é uma xarada debochada digna do Coringa, personagens que não aparecem no terceiro roteiro.
Desde o super-atleta que apresenta alto desempenho até a mulher no comando, a jogada publicitária é implícita em busca de supervalorização de um determinado tipo social e/ou ampliação de um mercado consumidor emergente que garante a expansão do lucro na sociedade do espetáculo. Seja o mordomo do filme ou as empreguetes da novela, a farsa é a de que o povo está no poder, que o povo pode... por conciliação.
Já o vilão grotesco que no momento de caos se apresenta, este não é nada lúdico. Na Grécia em meio ao caos econômico provocado pela especulação do capital internacionalizado e suas ações sem lastro e, pelo qual seus gestores econômicos tentam culpabilizar o Estado grego acusando como um dos motivos a concessão de benefícios a seus trabalhadores, o partido neonazista local elegeu uma bancada generosa com representantes medonhos. Brutamontes exigiram da imprensa a recepção em pé de seu líder, cena cinematográfica, pouco tempo depois um dos parlamentares desferiu bofetadas a parlamentares opositoras em um programa de televisão. O nome deste filme? 2012 e não 1984.
A reflexão sobre moral e ética é abordada de maneira progressista pelos socialistas há muito tempo, em sua arte, em sua teoria política. E com igual capacidade com que foi desenvolvida a moral revolucionária que rompe com armadilhas retrógradas e mitos que dão sustentação ao moralismo burguês, foi utilizada de maneira hipócrita, desleal e criminosa por setores ditos socialistas que experenciaram o poder político em diferentes regimes e lugares.
O mito que torna o roteiro de Batman inverossímil não são as proezas fantásticas que a arte é capaz de criar, a fantasia tem uma verdade para cada mente. Batman é o garoto propaganda perfeito para a indústria do consumo, não dispõe de superpoderes, dispõe de dinheiro, tecnologia, uma boa performance intelectual e física e, claro, vive motorizado, mas a grande mentira na estória do homem morcego é que a cidade de Gotham é alvo para o crime organizado. Gotham City é uma cidade organizada para o crime. Gotham tem policiais corruptos, políticos corruptos, empresários corruptos e quando é atacada por vilões apenas um homem tem o dinheiro, a inteligência, a tecnologia para protegê-la.
Ao ouvir o comentário: “Infeliz do povo que não tem heróis" o dramaturgo alemão Bertolt Brecht teria respondido: "Infeliz do povo que precisa de heróis".
Assim como Brecht, qualquer comunista sabe que herói é aquele que faz o que é necessário mesmo que sua imagem fique suja aos olhos do senso comum. Mas para qualquer comunista que se preze o herói faz o que é necessário para o bem comum. Em cidades como Gotham ex-comunistas chegam ao planalto de batmóvel e sobem a rampa com o guarda-chuva do Pinguim.
Nossos heróis rebaixaram seu programa até que ficasse aceitável para os empresários, a polícia e os vilões de Gotham, mas para garantir a estabilidade da cidade nosso homem-morcego sugou os recursos públicos dela. Em cidades como Gotham o dinheiro comum é necessário pois há um vilão para cada gabinete organizado.
Infeliz do povo que precisa de heróis...
Da trilogia de Christopher Nolan não lembro de ter visto o primeiro filme (Batman Begins) mas me cativou o segundo (Batman: O Cavaleiro das Trevas) que me levou a ver o terceiro (Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge), para ser uma mercadoria da Warner Bros estes últimos abordam teses sobre ética até relevantes que não ocupam apenas dois hipócritas e rasteiros minutos da película como em quase todas as mercadorias de entretenimento.
No segundo filme é apresentada, em traços grossos, a seguinte situação ética: um promotor público se destaca no combate ao crime organizado, assume a identidade de Batman como tática para proteger o herói e a si mesmo e se consolida como uma referência de justiça para a população, em seguida, vitimizado pelo vilão Coringa se corrompe transformando-se num criminoso também, para que o povo não perca a esperança na justiça e na ética encarnadas no herói, o verdadeiro Batman assume a autoria dos crimes e isenta a imagem do promotor que morre, mas cujo caráter permanece publicamente ileso. A tese central: herói é aquele que faz o que é necessário.
O terceiro ainda está fresco em minha cabeça. Como todo produto lançado com o objetivo de obter lucro e ao mesmo tempo reforçar a ideologia que garante uma sociedade na qual seja possível alguém obter lucro, quase todos os personagens carregam uma simbologia direcionada, no cerne da trama o mentor da vilania por trás do vilão secundário é uma mulher, o homem-morcego aparece num princípio decadente e desprovido de cartilagens devido à sua alta produtividade no passado, mas depois de dois abdominais se recupera e volta à ativa, uma ladra que tenta, de maneira criminosa, conseguir uma "Ficha Limpa" - a arte sempre antecipa a vida e a política - mas se regenera após momentos de contradições, um jovem detetive que questiona atuação de policiais por estes só acatarem ordens superiores sem refletir sobre a situação concreta, um Alfred que além de falar de igual para igual com seu patrão herda boa parte de sua fortuna.
Dentre as situações centrais, um vilão grotesco que no momento de caos provocado por ele mesmo se apresenta como detentor dos destinos do povo e com discursos nazi- fascistas de apologia popular contra as classes dominantes declara estado de lei marcial e instaura em Ghotam tribunais com processos de julgamento e punição similares aos universalizados pelos episódios seguidos às revoluções francesa e russa nos quais até os colaboradores são condenados e executados. Em instantes épicos o povo da cidade vai às ruas contra a tirania e, no final, o homem-morcego salva sua cidade, seu povo e a si mesmo (???) depois de explodir no ar com uma bomba nuclear. A bomba, antes de bomba era um reator que caso tivesse o núcleo preservado seria a investida ecológica da cidade...
Talvez esse seja o lado mais lúdico do filme, a alternativa ecológica. Mais lúdico até do que um "homem-morcego". Cogitar uma saída ecológica sem cogitar a saída do sistema capitalista é uma xarada debochada digna do Coringa, personagens que não aparecem no terceiro roteiro.
Desde o super-atleta que apresenta alto desempenho até a mulher no comando, a jogada publicitária é implícita em busca de supervalorização de um determinado tipo social e/ou ampliação de um mercado consumidor emergente que garante a expansão do lucro na sociedade do espetáculo. Seja o mordomo do filme ou as empreguetes da novela, a farsa é a de que o povo está no poder, que o povo pode... por conciliação.
Já o vilão grotesco que no momento de caos se apresenta, este não é nada lúdico. Na Grécia em meio ao caos econômico provocado pela especulação do capital internacionalizado e suas ações sem lastro e, pelo qual seus gestores econômicos tentam culpabilizar o Estado grego acusando como um dos motivos a concessão de benefícios a seus trabalhadores, o partido neonazista local elegeu uma bancada generosa com representantes medonhos. Brutamontes exigiram da imprensa a recepção em pé de seu líder, cena cinematográfica, pouco tempo depois um dos parlamentares desferiu bofetadas a parlamentares opositoras em um programa de televisão. O nome deste filme? 2012 e não 1984.
A reflexão sobre moral e ética é abordada de maneira progressista pelos socialistas há muito tempo, em sua arte, em sua teoria política. E com igual capacidade com que foi desenvolvida a moral revolucionária que rompe com armadilhas retrógradas e mitos que dão sustentação ao moralismo burguês, foi utilizada de maneira hipócrita, desleal e criminosa por setores ditos socialistas que experenciaram o poder político em diferentes regimes e lugares.
O mito que torna o roteiro de Batman inverossímil não são as proezas fantásticas que a arte é capaz de criar, a fantasia tem uma verdade para cada mente. Batman é o garoto propaganda perfeito para a indústria do consumo, não dispõe de superpoderes, dispõe de dinheiro, tecnologia, uma boa performance intelectual e física e, claro, vive motorizado, mas a grande mentira na estória do homem morcego é que a cidade de Gotham é alvo para o crime organizado. Gotham City é uma cidade organizada para o crime. Gotham tem policiais corruptos, políticos corruptos, empresários corruptos e quando é atacada por vilões apenas um homem tem o dinheiro, a inteligência, a tecnologia para protegê-la.
Ao ouvir o comentário: “Infeliz do povo que não tem heróis" o dramaturgo alemão Bertolt Brecht teria respondido: "Infeliz do povo que precisa de heróis".
Assim como Brecht, qualquer comunista sabe que herói é aquele que faz o que é necessário mesmo que sua imagem fique suja aos olhos do senso comum. Mas para qualquer comunista que se preze o herói faz o que é necessário para o bem comum. Em cidades como Gotham ex-comunistas chegam ao planalto de batmóvel e sobem a rampa com o guarda-chuva do Pinguim.
Nossos heróis rebaixaram seu programa até que ficasse aceitável para os empresários, a polícia e os vilões de Gotham, mas para garantir a estabilidade da cidade nosso homem-morcego sugou os recursos públicos dela. Em cidades como Gotham o dinheiro comum é necessário pois há um vilão para cada gabinete organizado.
Infeliz do povo que precisa de heróis...
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Makeup para a cup
Se os domingos tem sido um tanto rotineiros apesar de prazerosos (leituras sobre a guerra civil espanhola ainda e por muito tempo) a previsibilidade acaba às vésperas das segunda-feiras. Os acontecimentos imprevisíveis de um derradeiro domingo de fevereiro na Cidade Baixa de Porto Alegre, na atual conjuntura, não são nenhum fevereiro russo, em conjuntura revolucionária, mas me rendem uma dez crônicas para abalar o blog.
Como qualquer processo criativo, no qual se está intensamente envolvida, a construção da personagem Tereza Carrar extrapola as horas de ensaio e me invade outros períodos do dia e da vida, se alastra para âmbitos que não lhe pertencem, exige predisposição para detalhes mundanos e humanos que contribuam em sua formação. O trabalho automatizado e mecânico, também invade outros períodos do dia e da vida, se alastra para âmbitos que não lhe pertencem, mas esse neurotiza as pessoas em tempos modernos. Quem cria enlouquece com lucidez, com relativa lucidez - hoje despertei espreguiçando com as mãos floreando em movimentos flamencos (!). A pausa no trabalho corpóreo aos domingos não obedece nenhum resquício religioso que possa restar-me, mas os dos companheiros peruanos que organizam almoços dominicais no Comitê Latinoamericano religiosamente. Passo o dia a ler sobre o período histórico e mais previsivel que o domingo, só o papel contrarrevolucionário que a socialdemocracia cumpre em diferentes períodos históricos.
Entre uma página e outra, um mate e outro, um afazer doméstico e outro, um adolescente e outro, um gato e outro, um lanchinho e muitos outros, foram várias passagens pela janela até que decidi, o final da tarde seria para um charuto na galeria - os textos iriam junto claro. Com aquele frio no leste europeu é quase um crime não aproveitar as tardinhas de verão, sabe-se lá que nos espera...
Na ida para a galeria encontrei Débora, que mais tarde me acompanhou e passamos rapidamente da ditadura militar espanhola para a ditadura civil-militar brasileira ao evocarmos o querido e legendário Tejera de Ré, o Minhoca, companheiro destacado na resistência que, recentemente, deixou um número sem fim de amig@s e sinceras homenagens.
Depois de levar Deb em casa voltei reparando na quantidade enorme de "papa entulhos" que havia emergido no bairro devido à notificação autoritária que a Prefeitura enviou aos moradores intimando a arrumar urgentemente as calçadas - makeup para a cup. Eu havia passado um mes inteiro catando um daqueles para livrar-me dos ferros velhos que, há tempos estorvavam, na casa e quando achei fui espirituosamente perguntar à vizinha (distante, porém, vizinha) se poderia levar umas coisinhas. À pergunta seguiu-se uma ladainha infindável sobre como todo mundo jogava qualquer coisa no tal "papa entulho" dela ao invés de jogar no container (socorro!!!aquilo é lugar de lixo orgânico), que logo excederia em peso, que certamente cobrariam multa e mais uma porção de coisas - deve ter achado que meus ouvidos eram container também. Passada aquela mal sucedida empreitada, o atual contingente de "papa entulhos" era o paraíso na terra, ou melhor no asfalto, em instantes voltaria com boa parte da sucata.
Quase meia-noite, uma parada na cozinha só para um macarrão, outra parada na janela só para não perder o costume, toca o telefone. O amigo uruguaio conta que havia passado na praça para a qual nesse então eu olhava com ares de assassina a vestir as luvas de raspa (herança da carpintaria de formas) decidida a carregar os ferros. Elbio é a educação personificada, devo ser a única pessoa para a qual ele se atreve a ligar num domingo tarde da noite, talvez por ser a única com séria probabilidade a orquestrar uma tarefa no "papa entulho" num domingo tarde da noite. Terminada a conversa, me fui.
- Rachel, vou levar o ferro velho, já volto.
- Quer ajuda?
- Quero, mas só tenho um par de luvas, tira o vestido, troca de roupa.
Digamos que ela captou bem o espírito da coisa e se vestiu bem propícia à atividade, colocou a roupa mais rasgada que tinha e lá fomos nós carregadas. Apesar do peso pude dar boas risadas quando passamos por uma patotinha de guris que bem que teriam se fresqueado caso ela ainda estivesse no vestido, naquelas circunstâncias só vimos as caras de espanto - a visão era de dois seres aparentemente do sexo feminino surgidos das trevas cobertas por materiais dos mais variados.
Depois de depositarmos a sucata "pé por pé" para evitar o flagrante no papa entulho alheio, Rachel seguiu pelo lado da rua mais obscuro e inóspito para voltar para casa, meu instinto para o perigo só funciona com baratas mas meu instinto antisséptico é bem ativo e sabendo que aquela parte da rua cheia de moitinhas é um verdadeiro banheiro a céu aberto saltei:
- Vamos do outro lado.
Diferente de nós, um rapaz optou por tomar o lado escuro da rua, mas depois de uns cem metros de conversa quando chegávamos à esquina, percebi que o caminhar dele afunilava e, finalmente, atravessava em nossa direção, alertei Rachel e prontamente revertemos o caminho retornando para o trecho, movimentado e iluminado, do qual vínhamos. Não deu tempo, o homem nos alcançou, tomei a frente e disse que não tinha nada, ele insistiu para que desse o celular que estava no bolso da bermuda (meus amigos ligam domingo a altas horas, ora), eu repeti que nada tinha, ele fez um gesto de possuir algum objeto na parte inferior do abdome (acho que se havia algum objeto ali era meramente sexual), lhe agarrei as mãos (não desperdiçaria a oportunidade com minhas luvas de raspa fatais), mandei Rachel correr (ela não correu, andou um pouquinho o que aumentou minha tensão) e começei a gritar alto o suficiente ao ponto dos moradores dos arredores mesmo assim conseguirem fazer vista grossa, ele ficou sem reação e se foi.
Novamente no extremo iluminado da rua perguntei ao garçom do bar se não havia escutado os gritos, disse nada ter ouvido - a visão do rapaz deve ser mais aguçada que a audição a julgar que, quando passo de saia, está sempre atento - me perguntou como era o cara, lhe dei a descrição e ao mesmo tempo me surgiu que era parecido com Jonatan, um rapaz em situação de rua que conheço há anos, uma vez um vulto emergiu de uma praça em frente à qual eu passava às tres da manhã. Naquela ocasião pensei:... estou ferrada, a essa hora, essa praça... e aquele vulto saindo dela. O vulto em questão era Jonatan e disse: - Oi! Jonatan era irmão de Pablo, o qual conheci enquanto vendia docinhos na rua há uns dez anos e o qual, com seus dez anos talvez, me pedia os negrinhos que não podia dar mas dava. Foi com Luara, enquanto vendíamos caipirinha e leite de onça na rua há uns oito anos, que juntamos as histórias, não lembro como os associamos e qual deles ela conheceu mas de fato se tratava de dois irmãos que moravam na rua separados, Pablo cada dia mais corrompido e drogado, Jonatan educado e sempre atrás de "bicos".
O garçom sugeriu comunicar a Brigada Militar, pensei em ligar e denunciar uma manifestação de professores ou contra o aumento das passagens de ônibus, o que garantiria a agilidade do serviço, mas preferi voltar para casa. Assim que passou uma família inteira "pegamos carona" e caminhamos juntos, eu não havia visto o sujeito sumir no horizonte, desconfiei que estivesse por ali à espreita. Caminhando e contando e seguindo o povão, estava a narrar o acontecido quando atravessa em nossa direção o mesmissimo homem que tentara roubar-me, vi que era o mesmo pela roupa, meio perplexo me viu no meio das pessoas, completamente perplexa o pude ver com demora, os dois nos cumprimentamos, ele cínico, eu irônica. O vulto em questão era Jonatan.
Se não me reconheceu, não sei, pode haver reconhecido quando já era tarde para desistir da abordagem, pode haver reconhecido e mesmo assim investido na ação totalmente fissurado. Como não o reconheci, não sei, talvez na tensão me fique tudo nubiado, posso haver reconhecido e não haver acreditado.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Pajero Sexy, Nude Full
Beirava a meia-noite quando decidi encerrar meu domingo que, havia sido inteiro dedicado ao estudo da guerra civil espanhola, depois de adentrar em pormenores sobre a Alsácia-Lorena - é sabido que a Alsácia-Lorena não fica na España mas é como minha Amiga Lorena, mesmo sem querer, consegue gerar problemas de dimensões internacionais.
Não faz muito convidei Lorena para uma saída noturna, a noite seria uma criança, pelo menos até a meia-noite que é o horário em que começo a achar a noite uma criança chata e repetitiva e Lorena volta para casa cuidar suas crianças que de metáfóricas não têm nada. Estava tudo correndo às mil maravilhas, fora o fato dela estar escorrendo às mil maravilhas em função do calor insuportável que assola a cidade, eu já bebia bem feliz mas Lorena mal havia encostado no copo quando me alertou sobre um embrionário mal-estar no exato momento em que começou a tocar um tango, naquele instante poderia ser o Freud a trovar sobre o mal-estar na civilização, peguei Lorena jogamos mesa para um lado cadeiras para o outro e tangueamos nomás como si fuera esta noche la última vez.
E provavelmente tenha sido a última vez naquele lugar, porque eu mal havia saído da pose final e Lorena me olha: - Voy a vomitar ahora. Mas uma corridinha até o banheiro não seria impossível, numa angustia digna de um bom tango Lore segurou firme até lá, impossível foi achar o banheiro disponível. Depois de invadir a cozinha e pegar a primeira coisa vomitável que vi pela frente (uma caixa de papelão) veio o estrago e foi um papelão só, quando fomos abordadas naquela inevitável ação, deixei cair a caixa ao que o conteúdo se espalhou pelo chão para acabar de vez com qualquer possibilidade de ocultação e ocasionar fatal constrangimento. Enquanto eu limpava o chão com esfregão Lorena pulava ao meu redor: - Mirá! Mejoré, estoy bien ya! O "melhorei" dela era um melhorei tão pueril quanto o de uma criança resfriada que insiste em tomar banho de mangueira, no instante em que me prestei a parar o frenesi do esfregão e lhe olhei na cara parecia Gasparzinho, o fantasminha camarada, uma coisa transparente falando sem parar.
A Alsácia-Lorena e a Lorena rendem para uma boa historiadora e para uma boa amiga, respectivamente, capítulos copiosos que merecem ser escritos, por enquanto me resumo à crônica do fim de domingo. Depois de adentrar nos pormenores, beirar a meia-noite, refletir sobre a Alsácia e a Lorena, me plantei na frente da televisão para pintar as unhas (pior que ler só no domingo é ler no domingo e achar que leu demais...). Pintar as unhas não tem sido um evento raro depois que inventei de arranhar o chão na partitura de movimentos que criei para a personagem de Bertolt Brecht, Tereza Carrar, cuja história se passa na Andaluzia em 1936, o esmalte ajuda a proteger as unhas, mesmo que o nome da cor "Sexy Nude", a qual comprei sem achar grande coisa e resultou ficar lindíssima nas mãos, não denuncie proteger coisa alguma. Mas futilidade de comunista não dura muito, foi quando terminei a mão esquerda que meu "momento perua" foi interrompido. Já havia escutado uma sirene silenciar muito próximo - sempre que acontece penso que é um péssimo sinal pois significa que houve o óbito - outras se seguiram e igualmente silenciaram tão próximas quanto a primeira. Não pensei duas vezes, meu lado investigativo (descobrir em primeira mão) ou meu lado comunista (descobrir em primeira mão para traduzir aos vizinhos no dia seguinte depois de uma avaliação) superou meu lado paysano (esperar o dia seguinte para perguntar ao jornalista, ao comunista e aumentar em cem o número de mortos).
Se saísse do jeito que estava teria que torcer para as sirenes não serem da polícia e, pela terceira vez, ser detida não por ataque violento à ordem pública mas ao pudor, pesquei uma minissaia no armário e tentei mas não houve jeito, foi-se o esmalte da mão esquerda que ainda estava fresco, era demais querer uma unha bem pintada para poder arranhar o piso, saí noite adentro descabelada, com minha saia de pirigueti e com uma mão feita de "Sexy Nude" e a outra não, caso fosse uma batida policial no inferninho da esquina não voltava para casa tão cedo.
O "acidente" (não considero que os quase diários eventos desastrosos com automóveis nesta rua sejam acidentes, sempre antes de ouvir as batidas ouço a velocidade enlouquecida com que se deslocam) envolveu, além de seis pessoas, uma Pajero Full e um Gol. Desde minha chegada ao local até minha saída constatei o trânsito de, no mínimo, nove veículos de auxílio entre ambulâncias, carros de bombeiros, e viaturas da brigada militar e EPTC, do Gol restaram ferragens e pessoas presas nelas.
A barbárie do trânsito rodoviário e urbano é, em última instância, gestada numa mesma produção em série. Ao volante o indivíduo fútil, massificado, colonizado, explorado, oprimido, desvalorizado que acredita possuir valor apenas dentro de um latão com financiamento a perder de vista, na traseira desse indivíduo irresponsável, uma das indústrias mais poderosas do mundo, pressionando governos a fomentar crédito e isentar dos mais variados impostos sua mercadoria no esforço para evitar redução de lucros, o custo é imediatamente humano (a propaganda ofensiva confere ao fetiche poderes superhumanos e desmedidos que se traduzem em desastres a cada minuto), mediatamente planetário (a agressão ambiental é acelerada pela poluição causada por milhares de veículos em circulação em cada país) e alarmantemente público (segundo maior problema de saúde pública no Brasil com ocupação de 55% dos leitos hospitalares sem contar as doenças respiratórias que matam três crianças por dia em São Paulo). O governo brasileiro em sua política econômica sempre pronta a promover o "aquecimento" da economia que nada mais é que o consumismo exagerado é imediatamente, mediatamente e alarmantemente anti-ético. O único sinal a frear o carro-chefe da America Latina em suas importações automotivas foi a balança comercial, a balança da justiça social definitivamente não é o que mais importa à socialdemocracia brasileira.
A esquina, além de tomada pelos carros públicos e acidentados, contava com um bom número de pessoas curiosas (as quais somos chamadas de populares pelo jornalismo) e, na hora em que parece ter havido mais movimentação e chegou a formar-se um pequeno corre-corre, apareceu o que não poderia faltar: um cachorro. O cachorro era vira-lata, não acompanhava agente de segurança ou socorrista algum, a cidade baixa não é um bairro com número expressivo de vira-latas - o que mais se vê são cachorros domésticos presos às coleiras dos donos - mas asserindo o que é quase tão antigo quanto a própria tragédia o vira-lata emergiu com aquela capacidade dos cachorros de estar sempre em meio ao caos como que para ajudar em alguma coisa.
Assim que vi um jornalista agucei os ouvidos para saber do parecer "formal" do ocorrido visto que não havia vítimas fatais nem gravemente feridas, ao menos aparentemente. Se há algo que sufoca a jornalista que nunca serei, é essa incapacidade para panoramas técnicos ou mesmo essenciais mas que me escapam por sua materialidade incompatível com a abstração que me acompanha, enquanto eu observava bombeiros em ação, vizinhos que nunca havia visto no bairro e, principalmente o cachorro emergindo no caos, algumas pessoas a meu lado faziam uma análise perita sobre o lado do carro batido, a porta atingida, a umidade relativa do ar no exato momento da colisão, aliás, nem sei para que existem técnicos especializados nisso, vox populi, vox dei... Embora chegado por último imaginei que, aquele homem de mente perspicaz para o trato da notícia, com certeza arrasaria todo meu esforço tardio por apreender o que havia de mais concreto e lógico naquele choque, o brigadiano prontamente se dispôs a responder e eu estava a uma distância da qual ouvia perfeitamente:
- Nomes?
- Fulano, Ciclana, Mengano.
- Motivo?
- Provavelmente atravessou o sinal vermelho.
- Estado?
- Regular.
- Obrigada.
Pronto. A devassa ficou para o fotógrafo que por pouco não entrou na ambulância para registrar imagens até do tecido adiposo do socorrido. Me pergunto se é realmente de utilidade pública veicular três nomes que só dizem respeito às suas famílias e uma foto enorme da coisa, mas eu me pergunto tanta coisa... Fato é que aquela Pajero Full passa não só por cima de palha mas de um monte de outras coisas e é capaz de amassar fullpletamente outro carro. Fatídico deve ser sair com ela para qualquer outro país da América Latina, a etimologia para pajero é de domínio popular .
Utilidade pública mesmo é o relato de George Orwell sobre o período em que lutou nas milícias de defesa da república española durante a guerra civil. Apesar de certo preciosismo típico do inglês desconfio que também houvesse um esforço seu na apreensão total e racional dos fatos, mas não se torna forçado na forma - pior coisa que há é o distraído tentando dar uma de exato, um desastre. A ótima recomendação de Mário Maestri antecipou a pilha de leituras cedidas generosa e entusiasmadamente por Enrique Padrós, dois professores e historiadores cuja atuação extrapola as cátedras acadêmicas na produção e democratização de conhecimento.
O relato de Orwell é full. Franco pisou no povo espanhol como se pisa em palha. O capitalismo ficou nude perante o mundo.
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