domingo, 1 de janeiro de 2012
Razón de Vivir 2/2
* A Rosmarie de presente, a Marty de regalo.
A última noite do ano em Porto Alegre foi como qualquer dia do ano em Montevideo, de frio.
Só há uma coisa que abomino tanto quanto a injustiça, o frio. Uma, obra humana, o outro, obra da natura. Assim era, era quando Vivaldi compôs As Quatro Estações, agora as quatro estações ou a falta delas também podem ser obras humanas, ou desumanas. Estou convencida que, enquanto o planeta superaquece, a humanidade resfria com o derretimento das geleiras, pelo menos a humanidade do sul da América do Sul, que experimentou frio atípico no ano que passou.
A única tradição que celebro religiosamente todo natal e ano novo é a falta de luz na cidade, ainda bem que a cidade luz é Gramado, Porto Alegre nunca poderia sediar tal evento. A queda de luz veio com o cair da noite de 31 de dezembro, consequência do consumo desmedido de energia que acompanha o consumismo desmedido destas datas, cuja comemoração contradiz o cristianismo em todo seu dogma e cartilha. Os sete pecados capitais são alforriados para satisfazer os pecados do capital: o lucro, seu acúmulo. Há quem acredite muito, há quem acredite pouco, há quem não acredite, mas todos terão crédito. Ao meio dia do 24 de dezembro, apenas uma das empresas que dominam o mercado de cartões de crédito e débito no país registrou 655 operações em um segundo, a estimativa era que no dia seguinte passassem de 800. Nosso afresco atual - se a pós modernidade nos permitisse algum gênio à altura de Da Vinci - seria a pintura de um enorme presépio bem iluminado com os reis magos pagando os presentes do menino no Cielo.
Escrevia no escuro e o único foco de luz era a brasa do charuto aceso até Hanna aparecer iluminando com seu tablet - presente de natal claro - havia pedido para ela cantar Maná depois que meu Silvio Rodriguez parou junto com o apagão. A cena da noite da "virada" em casa era algo como se o mar que separa Cuba dos EUA secasse e seus territórios se juntassem: uma com seu habano na janela da área de serviço escrevendo à mão no escuro, a outra ao lado segurando o tablet que toca música e funciona até quando a gente não quer que funcione. Agora brilhavam além da brasa, o enorme par de olhos verdes dela e os azuis do siamês. Energia elétrica de volta, voltei para o quarto e para Silvio.
Para estarmos completamente agasalhados e ainda assim passar frio no novembro montevideano só poderíamos ser dois brasileiros, uma uruguaia abrasileirada e um cubano (por mais caliente que o cubano fosse). Cônscia de minha hipotermia e do viento sur de Montevideo havia ido para o show, que seria num pequeno estádio, prevenida de chale de lã e tudo. Lud e Fonsequinha nem tanto. Havíamos nos deparado com o estádio depois de passar por um "mini bosque" dentro de um parque onde se localizava o Charrúa. O cheirinho das tortas fritas, uma massa simples com forma de pão árabe frita em gordura animal, desafia meu vegetarianismo adulto trazendo uma infância em que aquelas tortas eram sinônimo de festa, futebol, música e trunfo - não havia satisfação maior para uma criança que pedir dinheiro para comprar torta frita e voltar com aquele troféu que, carregado por duas mãozinhas, sob a admiração de dois olhinhos, mais parece uma lua cheia.
Nos abancamos a uma distância em que podíamos ver Silvio além de escutá-lo, havia um mês as entradas tinham sido compradas pelos amigos Sebastián Jantos e Rossanna Attias numa verdadeira transação econômica Porto Alegre - Montevideo que contou com a mãe da Claudia e a mãe da Ro, ou seja, havia mais pessoas envolvidas na árdua compra dos ingressos que as que fomos ao concierto. Durante a apresentação Silvio reclamou do frio, Lud, Fonseca e eu entendemos perfeitamente, os outros quinze mil, todos uruguaios, caíram no riso e retrucaram: - Esto no es frio!
Bom comunista que é, dedicou uma música ao público das arquibancadas que "tinham menos e por isso compraram as entradas mais baratas", eu havia acabado de pagar o valor do ingresso a Fonseca que me havia feito empréstimo na data da compra, investi meu salário de vendedora para estar lá, em outro país a meio caminho do palco, talvez boa parte dos que estavam nos lugares menos privilegiados tenha decidido ir de última hora. Mas meu orgulho pequeno-burguês ferido não poderia sobrepôr-se àquele senso de justiça e humanismo, Silvio manda, aplaudi a declaração com entusiasmo. Vinte minutos depois do início da apresentação, grupos expressivos de pessoas ainda chegavam, sinal de que era um evento popular, no qual o chegar de ônibus, o pegar uma cerveja antes de sentar, o chegar atrasado mesmo, eram parte do espetáculo. As pessoas foram ao estádio ver Silvio Rodrigues como se fossem ver futebol, Brecht diria que é o músico perfeito, o músico das massas, o músico do materialismo histórico.
Os pedidos urrados da plateia eram os mais variados, se ouvia: - Silvio, cantá Unicornio! - Silvio, cantá Playa Girón! - Silvio, cantá El breve espacio!
Até que uma gritou: - Silvio, cantá lo que quieras!
Eu pedi Canción urgente para Nicarágua, tenho impressão que ele chegou a parar por uma fração de segundos para certificar-se que estava mesmo ouvindo aquilo, é, havia um dinossauro no meio do público, e era eu.
Minha expectativa para aquele concierto era descomunal, até pouco tempo, o Uruguay e Silvio me eram memória preciosa de um mundo cujo passado foi precipitado artificialmente, não esperava tê-los novamente, ali, juntos. O Uruguay em que nasci já havia rasgado seu papel de Suíça latinoamericana, repleto de velhos carros e esvaziado de uma parcela importante de seu povo que havia deixado o país exilada política ou economicamente, numa generosa amostra do que pode ser o pós-capitalismo sem superação: a barbárie. A Cuba em que Silvio vivia, já havia rasgado seu papel de cassino latinoamericano, repleta de velhos carros e esvaziada de uma parcela importante de sua burguesia que havia deixado o país exilada política e economicamente, numa generosa amostra do que pode ser o pós-capitalismo superado: o socialismo.
Agora eu esperava que o Uruguay cantasse do início ao fim junto com Silvio, mas boa parte do tempo só o escutou. Aquele não cantar junto com o artista destoava das tortas fritas iniciais, dos atrasos finais, do lugar onde foi realizado o show, e dos gritinhos emocionados entre uma música e outra, só combinava mesmo com o nome pelo qual é conhecido um show no Uruguay - concierto-, na hora do vamos ver, parecia um concerto clássico, no Brasil as pessoas cantariam junto, eu não ousava cantar sozinha com a voz desafinada que dói, com o timbre baixo de Silvio e o silêncio fúnebre durante algumas músicas seria alvo de uma torta frita se acompanhasse cantando. Não foi todo o tempo assim claro, alguns hinos rodrigueanos tiveram direito a coro massivo, alguns.
A certa altura do concierto Silvio foi homenageado como visitante Ilustre de Montevideo, já perto do final o visitante ilustre pediu ao público que sorrisse para ele filmar e postar em seu blog, "sinó no me lo creen"...
O concierto contou com as flautas mágicas de uma moça que à primeira vista, por sua postura, vestimenta e cabelos, parecia uma freira e ao tocar seu clarinete e flautas mais parecia uma ninfa. Silvio a acompanhava enfeitiçado, o público estarrecido - o que talvez explique os silêncios fúnebres, talvez fossem silêncios celestiais. A nostalgia e a doçura das melodias do músico harmonizavam com o sopro dos instrumentos dela de um modo que parecia encantado por suas próprias composições, algumas concebidas e executadas há mais tempo que o tempo de vida da clarinetista. Eu não sabia mas depois descobri, Silvio estava encantado pela instrumentista e pela esposa Niurka González.
Quando o amor ali já havia tomado o poder, quando já havia se estabelecido como estética oficial, adentra o palco Amaury, outro cubano, amigo de Silvio, músico que não seria bem daqueles que caem no gosto dos que lotaram o Charrúa. Então Amaury numa simplicidade e alegría comoventes contou porque havia atravessado a América Latina para cantar aos uruguaios.
A música que seguiria, "La uruguaya", foi composta por ele para Alejandra, uma uruguaia chegada em Cuba com seus pais depois do último golpe civil-militar e do terrorismo de Estado instaurados no Uruguay. Alejandra chegou à ilha grávida e por lá não ficou muito tempo, mas o tempo suficiente para enamorar Amaury, o companheiro cubano se mostrou companheiro de vida e ela dedicou o nome de seu filho àquele homem apaixonado e generoso. Amaury lhe dedicou a música e prometeu cantá-la para ela, no país dela.
Amaury cumpriu a promessa quase quarenta anos mais tarde, Alejandra estava na plateia. Por acaso, eu também.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Una
el camino que los sueños
prometieron a sus ansias...
Sabe que la lucha es cruel
y es mucha, pero lucha y se desangra
por la fe que lo empecina...
Uno, Discepolo.
Una
- Como tu aguenta essa cabeça efervescente? Esta loja deve ser a terapia dela...
Foi assim que Bárbara Benz, cliente do comércio em que trabalho, artista plástica talentosa, querida e delicada me fez escorregar para debaixo do balcão da loja ao largar essa para meu chefe numa faceta franco atiradora que não lhe conhecia. Bárbara Benz passou por cima de mim feito uma Mercedez Benz.
De fato entre a loja e eu há uma dialética, eu conto moedinhas (isso ajuda mesmo a focar), conto sementinhas, conto de um tudo para as velhinhas. Em contrapartida, enlouqueço bastante os outros integrantes da empresa, lhes enlouqueço os horários, as cabeças e as vistas. O pequeno banheiro vira camarim umas tres vezes ao dia, e dele saio propícia para o teatro, para o tango, para a academia, para o que der e vier. O chefe/DJ ajuda e quando me vê entrar de mala e cuia no banheiro troca a música ambiente, sempre clássica, por um tango ou algum jazz que acompanhe melhor o turbilhão que vai passar por aquele metro quadrado. As colegas já tem até um cronograma de revezamento para ver quem fica até mais tarde em meu lugar, amadas.
Sábado era a vez do tango, mas a semana já havia começado com ele. Mirian, minha professora, na tentativa de conciliar minha falta de horários e a consequente ausência nos ensaios, me delegou uma apresentação "solo", ou melhor, sola, solita nomás. Na mais absoluta inocência me sugeriu que recitasse uma poesia em homenagem a Buenos Aires. Uma uruguaya, de Paysandú, uma sanducera, recitando um tango em homenagem a Buenos Aires? A Buenos Aires que esmagou a luta de Artigas e do povo da Banda Oriental, que nos quer usurpar a nacionalidade de Gardel, que sonha em fazer alfajores melhores que os nossos? Nem respondi, só ri...
Mas chauvinismos à parte fui atrás de algum tango, argentino ou uruguaio, com espanhol acessível a lusofalantes, que pudesse expressar a nostalgia e o sentir do povo rioplatense. E não achei nada mais nostálgico e rioplatense que o cubano Ibrahim Ferrer cantando "Uno", como sempre, terminei com um cubano, fumando um habano. Minha vida seria tão mais fácil e feliz se o Uruguay fizesse fronteira com Cuba e não com a Argentina, sem contar que o que a Argentina teve de melhor, el Che, perdeu pra Cuba mesmo.
O desafio da semana foi criar uma partitura de movimentos para a declamação, recitando o trecho escolhido do tango no compasso da música mas sem cantar, descobrindo eixo nos passos que, criados para serem executados a dois num equilíbrio de corpos, seriam feitos por apenas uma pessoa, com poucas horas de ensaio. Nenhum aperto que não tenha passado no Grupo Trilho de Teatro Popular e justo na semana emocionante em que o grupo foi premiado com merecidos tres Tibicueras de Teatro Infantil e o Gremio Esportivo Ferrinho sediou a assinatura da regulamentação da Vila dos Ferroviários, conquistas importantes comemoradas pelo Trilho e pelos Ferroviários.
As escalas de terça a sexta foram casa, loja, comitê. A casa fica a cinco minutos da loja à direita e o comitê fica a cinco minutos da loja à esquerda, tudo voando claro. No bar/ comitê Latinoamericano, tive o espaço, a tranquilidade, e a beleza necessária para criar e ensaiar a participação que faria na apresentação de tango. Já era sexta-feira e eu ainda acrescentava passos, passos que comecei a aprender há um ano e mal domino, mas vamos lá, pensei em ensaiar às sete e meia da manhã do sábado da apresentação, antes de começar a trabalhar, ficaria mais segura. Roberto do comitê me olhou de um jeito que só faltou dizer: pirou cara-pálida? Mas educadamente me disse não ser possível.
No sábado às cinco da manhã eu não fazia ideia de onde estava mas percebi que dormia em casa e o celular apitava, pensei que fosse algum amigo "tarja-preta" daqueles que não tem horário para ligar ou enviar mensagens quando estão deprês. Demorei mais ainda para entender a mensagem, mas era clara como o dia: Oi Ana, podes vir às 7:30 ensaiar. Era Roberto (que deve achar que todo mundo vai dormir às cinco da manhã como ele e os outros donos de bares da cidade) na maior das boas intenções. Olhei pro espelho e quase não me vi de tão inchados e vermelhos de sono que me estavam os olhos, pensei em ensaiar toda capenga mesmo mas lembrei que havia deixado a chave do comitê em minha bolsa na loja, na loja fechada. O dono da loja deveria estar se preparando para fazer as compras na tradicional feira orgânica da José Bonifácio que abastece nossa pequena feira orgânica na Venâncio Aires. Não conseguiria nem ensaiar nem mais dormir, pensei até em fazer a feira com o chefe (programão de sábado de madrugada!) e, por sorte, antes de pensar em algo mais já havia tombado na cama novamente.
No final da tarde, depois de atravessar a loja e os clientes toda caracterizada como quem atravessa o salão pronta para bailar, fui direto à casa de Mirian que me levaria para a apresentação, e me aliviou dizendo que poderia ensaiar por uma hora ali até ela aprontar-se. Na sala espelhada de piso deslizante da professora, coloquei a música e, depois de pedir para ela não ver antes de finalizar detalhes, retomei os ensaios. Dois minutos depois de ter atendido bulhufas meus apelos, Mirian adentra a sala em lágrimas comovida com aquele tango quase cantado, quase cubano, quase acabado.
Assim que Lorena chegou, Dorgel e Mirian saíram com o carro carregado de sacolas, araras para figurinos, malas carregadas e duas uruguayas "muy malas". O caminho era longo e cheio de paradas para que, onde cabem cinco, coubessem uns dez. Antes mesmo de subirem Ariana e Takeda, Lorena e eu ensurdecemos os professores num rioplatense metralhado e alto cujas variações se resumiam ao montevideano lunfardo, carregado de gírias capitais dela e o paysano sem "esses", rasgado, quase árabe meu. O fato de termos passado em questão de minutos por todos os assuntos da vida e pelos assuntos de toda a vida dos outros pode haver contribuido consideravelmente para dar emoção à charla até nos depararmos com as caras estupefatas dos dois que não conseguiram emitir som algum perante aquela epopeia gaucha.
Já na casa de Regina para um breve aquecimento, nos organizamos em caravana para chegar ao local da apresentação junto com a chuva. Finalmente lá Fortuna nos esperava metido a anfitrião e quase o mordi quando veio me oferecendo as comidas do camarim cujas opções eram carne de vaca com alguma fritura, carne de frango com alguma outra fritura, e carne frita. Ele faria um bêbado na entrada de um dos tangos, éramos literalmente o bêbado e a equilibrista, ele agarrado em sua garrafa de 51 para adentrar no personagem e eu tentando fazer o 8 atrás sem adentrar o chão. Ana Mari e Regina protagonizaram uma cena hollywodiana quando, numa pernada dupla, fizeram voar pelos ares a bandeja do garçom que passava com as carnes e as frituras que se espalharam aos quatro ventos, qué lo tiró, qué patada...
As combinações finais e a preparação para a entrada são sempre o estopim para alguma crise, e a completa patetice do gênero antagônico conseguiu tirar Lorena do sério, eles estavam más perdidos que galleta en boca de vieja, se calentó la Lore. Crise superada começou o tango ao enunciado da própria Lorena, os tangueros ocuparam com Mirian e Dorgel mais uma pista desta cidade. Minha tarefa mais arrebatadora ali não seria a apresentação que faria só e em instantes, fui delegada como assessora de troca dos, sempre milhares, de figurinos da profe, afinal, naquele monte de malas no carro estavam todos eles. Eu cumpri minha tarefa e os figurinos também, ela estava lindona e além de dançar com Dorgel, foi acompanhada por Alfredo, argentino guapo e amigo que nos deixa no sufoco com os horários (outra vez o comércio na vida dos tangueros) mas quando chega ao salão mostra a que veio.
Nas mesas cenicamente dispostas em volta da pista, quem não dançava esperava sua vez na maior elegância. Teve tango a dos, tango a tres, tango en parejas y una milonga arrabalera. Além do público compenetrado e deslumbrado, havia o público desinteressado e mal educado, uma meia duzia de elementos que consideram a arte pano de fundo de sua vida fútil e suas conversas sobre bebidas carros e mulheres, porra, se trocar os carros por cavalos o tango fala de tudo isso, custava prestar atenção? Esperei que fossem respeitar minha apresentação baseada na palavra e na escuta, continuaram na maior algazarra, em minha frase final me dirigi até a mesa em que estavam e lhes gritei o texto, que nada... ouviram um mosquito zumbir e voltaram à festinha particular. Apesar de poluir a sonoridade tanto da declamação quanto dos tangos dançados pelo grupo, o grupelho pentelho não conseguiu tirar a emoção dos trabalhos apresentados que envolveram o restante do público que, em pé, apreciou a noite e, a convite se somou para dançar um tango final no qual mandou muito bem.
Após o término, a música tecno dominou a festa, era hora de descontrair e agora sim, cada um beber e dançar como quisesse. Foi isso que fizeram todos, Dorgel decidiu que era o astro da festa e foi para o centro requebrar, Lorena quase se descadeirou durante a Shakira, Mirian deve ter decidido que depois de dançar tão bem durante os tangos iria quebrar a rotina, deixou Dorgel boquiaberto depois de uma dancinha meio bizarra que ele não imagina de onde tenha saído. A primeira-dama do Fortuna lhe deu uma canseira, estava mais energética que Gatorade com vodka. Paola, Tô e Juliana agitaram como sempre em triângulo equilátero. Alfredo comandou as massas numa coreografia de Y.M.C.A. Alexandra é perita na civil e nas danças de salão todas. Paulo dança tango até quando toca forró.
Eu, descobri que nos vidros que enfeitavam as mesas havia alfajorzinhos uruguaios, magra com cabeça de gorda ou gorda com corpo de magra, fiquei acima de qualquer suspeita, sentada à mesa comendo um, dois, tres, quatro, cinco...alfajores. Tentei conseguir gelo para minha bebida com o garçom mas aconteceu a mesma coisa que na formatura da Fifi, eles somem, desisti da bebida e do garçom, minha relação freudiana com eles só se compara à minha relação de estrutura histérica com motoboys. O restante dos alfajores levei como cachê, ou butim de guerra se levar em consideração os elementos que não calaram a boca durante a apresentação.
Novamente na casa de Mirian para recolher algumas roupas, chamei um táxi para que andasse algumas quadras comigo até em casa. O rapaz encarregado da segurança do predio naquela noite disse ter sido bom eu ficar esperando o serviço no banquinho da entrada, que se eu esperasse na rua ele teria que ir comigo. Eu devia medir um metro a mais que ele, havia roubado alfajores na festa e apesar de bem penteada, vestida de tango, calçava um tenis enorme número quarenta, fiquei pensando o que teria levado aquele rapaz a imaginar que eu precisaria de segurança.
Na próxima apresentação quero dançar ao lado de minha amiga Angelita, outra una que faz falta.
O tango pode ser o mesmo, porque o caminho da vida será o mesmo, cheio de esperança e nostalgia intercaladas, porque unos perderam seu coração mas não há una que não tenha dado o seu.
Si yo tuviera el corazón
el corazón que di
si yo pudiera como ayer
querer sin presentir.
Si yo tuviera el corazón
el mismo que perdi.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Eles mataram a polícia
terça-feira, 29 de novembro de 2011
A corrupção permanente
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Razón de Vivir 1/2
pequeña hermanita, niña sin jardín,
por no tener flores sembraste una en ti.
yo pudiera darte un inmenso jardín
si pudiera darte todo mi pais.
Yo sé de las cientos de suertes que corren
las flores silvestres, la flor sin jardín,
pero también sé que sequías y piedras
no pueden con una razón de vivir.
O mes de novembro foi marcado para a comunidade uruguaia residente no Rio Grande do Sul, pela visita à capital do presidente da República Oriental del Uruguay, José "Pepe" Mujica. O lutador social, ex-cativo e torturado do Estado uruguaio durante a última ditadura civil-militar, agora presidente da república, recebeu do governador do estado e do presidente da Assembleia Legislativa gaúcha, as comendas máximas destinadas por suas Casas a alguém cuja atuação social, política, humanitária é relevante.
Assim como "Lula", "El Pepe" configurará na história da America Latina como um homem que, fruto e construtor da luta social levada a cabo em seu país na segunda metade do século passado, combateu a miséria e promoveu avanços nos direitos humanos comandando o segundo governo da frente ampla que quebrou por vias eleitorais e tardiamente, o continuismo de uma política reacionária, entreguista e de arrocho estatal aplicada ora pela direita radical, ora pela direita dita nacionalista.
Estive em quase todas as atividades organizadas durante a estadia de Mujica em Porto Alegre prestigiando os discursos, as entrevistas, os debates - minhas colegas de trabalho e o dono da loja, um pequeno comércio, trabalharam em meus horários para que pudesse participar dos eventos. Ouvi atentamente Mujica e contemplei sua lucidez sobre si e sobre La Patria Gaucha, vislumbrei suas fraquezas e contradições nos discursos majoritariamente
Durante reunião do mandatario com a comunidade intervi e lhe disse compreender que a miséria, sua fome, sua violência, vão além de consignas e conceitos, e que atender necessidades
O presidente não se saiu mal na resposta, afinal, vem de uma terra de poetas... Utilizando ardiloso recurso idelógico e linguístico, me atacou como a uma acadêmica inconformada da exploração de mais-valia aprendida das teses marxistas: -- Quienes reclaman son aquellos que más tienen, los que menos tienen no reclaman, viven felizes. (?!)
Em entrevista, como componente do primeiro Conselho Consultivo de Uruguai@s em
Porto Alegre e Região Metropolitana à rádio uruguaia que cobria os compromissos da comitiva, fui observada pelo "español correcto" apesar de falar deliberadamente "en buen sanducero" com o sotaque carregado de quem nasceu em Paysandú, interior do Uruguay. Voltei a pensar sobre o aprendizado pelas vias não cultas que me garantiram grande parte da compreensão e expressão de um conteúdo.
A impossibilidade de concentração total em qualquer coisa, resultado da dispersão nata e algumas contingências me garantiram a inquietação suficiente para não aprender muito de regras, de regras que regem as frases, as pontuações - a mãe que tive me rasgou o primeiro livro didático e a cara por não conseguir aprender a separar a palavra oso, urso, o-so, antes mesmo de ir para a escola . Mas de onde viria então a paixão pelas palavras, a poesia que salva de uma realidade com a qual discordo permanentemente, e "o español correcto"?
O violão era velho e simples, o pai jovem e de voz oprimida. Os dois juntos, me acompanharam dos 4 aos 18 anos, no início sempre, depois mais raramente. Ele e o violão vinham de um bairro pobre e eu e minha mãe de uma rua bem localizada no centro da cidade do norte do Uruguay. Nunca os olhei com
As canções, estas sim eram rebeldes, afirmativas, e deixavam claro que o mundo só poderia ser digno se governado por poetas, artistas e sonhadores afins. As de Silvio Rodríguez (quase todas) eu não entendia muito e me tocavam mais que as demais, algumas dele pareciam feitas para crianças, contavam de unicórinos, de pessoinhas que faziam o bem, outras de mulheres estremecedoras e amores covardes incapazes de virar histórias, e uma era urgente para a Nicarágua. A música de Silvio tem um poder exorcista sobre o desencantamento da vida.
Não faz muito tempo que a internet tornou acessíveis vídeos, letras, imagens, e todo tipo de material sobre o trabalho do cantor da nova trova cubana, do poeta que nasceu com a revolução de 1959. Até então meu Silvio era K-7, e se no Uruguay era considerado quase um múscio nacional, no Brasil os dois chegamos ilustres desconhecidos. O congelei com a infância, com a língua mãe, com a revolução na Nicarágua.
Vinte anos mais tarde, longe de meu pai e da banda oriental e perto como nunca daquelas letras e da banda larga, retomei as músicas de Silvio, recitei muitas e dancei uma para lembrar por aqui, que nos Estados Unidos há 5 cubanos presos por defender seu país.
Vinte anos mais tarde, Silvio Rodríguez voltou ao Uruguay para cantar. E eu voltei ao Uruguay para ver o Silvio que estava por trás daquele que meu pai havia inventado para mim, daquele que eu havia dançado por aqui, recitado para José Martí.
"El Pepe" diz que o Uruguay é pequeno e os vizinhos fortes, impávidos, colossos, deixando o país numa posição tímida para aplicar qualquer política mais ousada, independente. Talvez o medo do Uruguay seja reviver um Paraguay esmagado pela política e as armas da tríplice vizinhança - dos dois colossos e do pequinês.
Quem sabe a visita do cubano relembre como se impõe respeito aos vizinhos
fortes, impávidos e colossos...
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Siempre Adelante!
